Através do espelho órfico

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O Mar de Coral
Autora: Patti Smith
Título original: The Coral Sea
Tradução: Ricardo Marques
Editora: não (edições)
N.º de páginas: 59
ISBN: 978-989-99120-6-9
Ano de publicação: 2015

Em 2010, Patti Smith documentou a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe num espantoso livro de memórias, Apenas Miúdos (Quetzal), vencedor do National Book Award. Não era, porém, a primeira vez que escrevia sobre o amigo de quase toda uma vida. Em 1996, sete anos após o desaparecimento de Mapplethorpe (vítima da SIDA), escreveu O Mar de Coral.
Homenagem e exercício de luto, esta é uma intensa despedida em que deixou «tudo o que sabia sobre ele encriptado num pequeno conjunto de poemas em prosa». Forma de contar «a nossa história», que é antes de mais a história de Robert, aqui transfigurado na figura de um marinheiro que viaja em busca dos mares distantes, lá longe, onde é possível admirar o Cruzeiro do Sul.
A primeira vez que Patti viu o amigo, «ele estava a dormir». E é com Morfeu, deus dos sonhos, que a viagem começa. A atmosfera onírica permanecerá durante a jornada até às Ilhas Salomão, durante a qual o «Passageiro M» se deixa «cair numa série de imagens» que se sucedem «com uma força amazónica»; e nem sempre bem controlada. A cascata de metáforas evoca o trabalho fotográfico de Robert («Uma única túlipa. Alongada, só e negra, como uma mancha no sol»), o evoluir da doença («Já não conseguia comer; os sólidos passavam por dentro dele com a violência de uma nuvem»), ou a admiração sem limites («Teria sido ele um breve clarão, uma margem cintilante…»).
Todavia, a maior parte do subtexto biográfico fica escondido sob um espesso manto de simbolismos inescrutáveis e por vezes excessivamente pesados. Esta edição inclui ainda três poemas escritos noutras ocasiões. Num deles, talvez o melhor, Robert atravessa um «espelho órfico», para «vaguear eternamente / na busca da perfeição / os tornozelos azuis tatuados de estrelas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges