Bachianas

bach

Bach
Autor: Pedro Eiras
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 154
ISBN: 978-972-37-1786-0
Ano de publicação: 2014

Em Substâncias Perigosas (Livrododia, 2010), «pequeno divertimento sobre literatura em cem lições», Pedro Eiras terminava uma fascinante deriva ensaística com a seguinte ideia: «A literatura nada deve ao que já existe: antes abre portas insuspeitas. (…) A escrita inventa passagens, estreitas e incertas. Ninguém sabe aonde levam.» São justamente portas insuspeitas e passagens incertas que estabelecem a ligação entre os 14 capítulos deste volume, consubstanciando a heterodoxa aproximação de Eiras à figura e à obra de Johann Sebastian Bach.
A génese do projecto remonta a 2002, conforme explica o último texto do livro, no qual vemos o autor embalando a filha «às escuras no corredor», adormecendo-a enquanto canta em voz baixa uma ária da Paixão segundo Mateus. Há neste momento de puro amor paternal uma fé no poder da música, «como se estas notas (…) pudessem proteger-nos, esses pequenos sons, um pouco de calor entre os nossos corpos». Nasce ali a vontade da escrita, ainda sem uma forma: «Penso que gostaria de escrever sobre Bach, mas não sei como se escreve sobre Bach». Anos mais tarde, descobrirá numa biografia romanceada, escrita por uma obscura autora britânica (Esther Meynell), certa cena inverosímil: Anna Magdalena Bach comovendo-se, ao espreitar às escondidas o marido no momento da criação. Se a fantasia é por natureza anacrónica, «então é preferível inventar o passado, assumir o fingimento», incorporando na obra a própria investigação (em livros, na internet), os impasses, os falhanços. Eiras lê, compara, interroga, procura o que resta de «antigas vozes», explora a «dobra da linguagem», expõe o seu espanto, as suas dúvidas. Observa a biógrafa no acto de imaginar a esposa à espreita e entra também no jogo: «copio o início e o fim de duas cartas verdadeiras de Anna Magdalena Bach, em 1750, e nas entrelinhas escrevo, livremente, uma carta impossível».
Desfeito o nó, surge então o cerco indirecto ao génio de Leipzig, através de personagens de vários tempos históricos que refractam, das mais diversas formas, a sua luz. Figuras unidas pelas tais portas e passagens subtis que a literatura abre ou cria: a viúva no momento de repartir os bens do grande compositor, numa casa já esvaziada, temendo que a sua música, vista como «boa para velhos austeros, com roupas e perucas fora de moda», venha a ser esquecida; o retrato desta mulher por Esther Meynell em Pequena Crónica de Ana Madalena Bach; Jean-Marie Straub e Danièle Huillet montando em Paris, durante o Maio de 1968, um filme inspirado no livro de Meynell, enquanto na rua se ergue o bruaá dos manifestantes; o actor desse filme, Gustav Leonhardt, magnífico cravista, em troca epistolar com Nikolaus Harnoncourt, discutindo a problemática questão da autenticidade, que talvez só possa ser «a ficção de uma autenticidade»; etc.
O labirinto expande-se e no seu círculo abarca Glenn Gould, John Cage, Leibniz, Lutero, Albert Schweitzer, Maria Gabriela Llansol (poderosíssima, a imagem da escritora ouvindo Bach numa «Herbais hostil», enquanto descasca ervilhas) ou Etty Hillesum a caminho de Auschwitz num comboio, antecâmara do inferno, onde a jovem judia, consciente de que «vamos para a morte», se oferece para ajudar Deus. Este é o único capítulo sem referências musicais, ao qual se segue, por nos termos acercado do indizível, um capítulo vazio de palavras, só folhas em branco e a indicação de uma cantata sublime: a BWW 82 (Ich habe genug…). Porque é sempre na música de Bach que a escrita de Eiras, com as suas tantas modulações, vai desembocar. E assim está certo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges