Balada da Guerra Fria

submundo

Submundo
Autor: Don DeLillo
Título Original: Underworld
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 840
ISBN: 978-989-676-014-4
Ano de publicação: 2010

Na página 680 de Submundo, Albert Bronzini, uma das dezenas de personagens secundárias do assombroso romance de Don DeLillo, senta-se numa pastelaria a fazer tempo para um encontro. Enquanto espera, desdobra o jornal: «A primeira página deixou-o estupefacto, dominada por um par de manchetes a três colunas. À sua esquerda, os Giants conquistam a liga, vencendo os Dodgers graças a um home run dramático na nona entrada. E à direita, num emparelhamento simétrico, com o mesmo tipo de letra, caracteres do mesmo corpo, o mesmo número de linhas, a URSS faz explodir uma bomba atómica – cabuum – mas os pormenores permanecem em segredo.»

nyt_1951

Assim que DeLillo viu pela primeira vez esta capa do New York Times de 4 de Outubro de 1951, descoberta ao pesquisar microfilmes de edições antigas do jornal, soube o que tinha a fazer. A pontual alegria desportiva e a ameaça nuclear colocadas lado a lado, como gémeos siameses, como se fossem acontecimentos de igual magnitude e importância, deram-lhe um vislumbre labiríntico do «poder da História», essa energia do zeitgeist que se esconde às vezes nas mais inesperadas conexões, neste caso «uma simetria que parecia ter estado à espera de alguém que a descobrisse» (como o escritor sugeriu num texto publicado na revista de domingo do NYT, por alturas do lançamento de Underworld, em Setembro de 1997).
São estes os dois principais eixos narrativos que sustentam a complexa estrutura do romance. De um lado, a história da «tacada ouvida em todo o mundo», o improvável home run de Bobby Thomson que deu aos Giants uma vitória mítica. E do outro a Guerra Fria, essas décadas de incerteza e medo atávico que se inauguraram com o acesso dos soviéticos às armas nucleares. Há a trajectória da bola Spalding que se perdeu numa das bancadas do estádio, prosseguindo depois o seu caminho de mão em mão, entre coleccionadores, já transformada em emblema de uma inocência perdida. E há a imagem do clarão atómico numa estepe russa, seguida da nuvem em forma de cogumelo, ícone da aniquilação total a pairar sobre a espécie humana. Entre uma e outra, explorando a infinita flexibilidade do género romanesco, detendo-se tanto nas grandes escalas narrativas como nas minúcias do quotidiano, DeLillo empreendeu a síntese fulgurante do que foi a vida nos EUA na segunda metade do século XX.
Comecemos pelo basebol. O prólogo do livro é um morceau de bravoure com mais de cinquenta páginas que vale por si mesmo enquanto obra literária (foi de resto originalmente publicado como conto na Harper’s Magazine, em 1992, com o título Pafko at the Wall). O jogo entre os Giants e os Dodgers é narrado como se de uma epopeia se tratasse. Temos o ponto de vista de um rapazinho negro, Cotter Martin, que entra sem pagar bilhete e no fim se apropria da bola do home run, iniciando uma longa «sequência de proprietários» deste artefacto de memorabilia (figuras que iremos conhecendo ao longo do romance); ouvimos a um metro de distância o célebre relato radiofónico de Russ Hodges, que levou a euforia vivida no estádio Polo Grounds aos quatro cantos do mundo; e entramos no camarote partilhado por Frank Sinatra e J. Edgar Hoover, director do FBI. A dado momento, alguém lhe murmura a notícia de que a União Soviética acaba de fazer um ensaio nuclear em local secreto, mas Hoover continua a ver o jogo, pressentindo desde logo que aqueles milhares de rostos à sua volta, «cheios de franqueza e de esperança», estão na realidade já parados «no sulco da destruição».
Quando chega o momento da tacada decisiva de Thomson, DeLillo faz também, à sua maneira, um home run, ao descrever a chuva de papel que os adeptos lançam das bancadas superiores. Entre outras coisas, caem folhas de um exemplar da revista Life, quase todas páginas de publicidade que exaltam os reluzentes produtos da sociedade de consumo, café instantâneo, carros, ferros para fazer waffles, champôs, «símbolos venerados da economia pujante, mais fáceis de identificar do que os nomes das batalhas ou dos presidentes mortos». Uma das folhas fica presa no ombro de Hoover. Em vez de um anúncio, porém, o que o homem forte do FBI vê é uma reprodução do quadro O Triunfo da Morte, de Bruegel, com o seu desfile de aberrações e mortos sanguinários, esqueletos que regressam «para arrebatar os vivos». No meio da multidão em festa, Hoover antevê o espectro do terror futuro, um estado de ameaça permanente que, no seu caso, alimentará uma paranóia então ainda em estado embrionário, mas que depressa se tornará a grande religião americana: «Ele sabe apenas uma coisa, é que o génio da bomba reside não somente na sua física de partículas e raios, mas também no facto de gerar uma ocasião para novos segredos. Por cada explosão nuclear atmosférica, (…) ele calcula que uma centena de conluios comecem a desenvolver-se na sombra.» Alguns desses conluios são o combustível da máquina ficcional de Submundo, pelo que não me parece exagerado considerar que o prólogo funciona como metonímia do livro inteiro. De certa maneira, é dali que irradiam todos os fios narrativos e grandes temas que DeLillo depois explora em detalhe.
Quanto à história principal, vai sendo contada de trás para a frente. Começa em 1992, quando Nick Shay, o protagonista, trabalha para uma empresa de tratamento de resíduos, e depois vai avançando às arrecuas (passe o paradoxo), sempre mais para trás, década a década, até aos tempos da adolescência no Bronx e aos dois momentos determinantes que Nick vive aos 17 anos: ser amante fugaz de uma mulher casada e matar a tiro outro homem, em circunstâncias que permanecem misteriosas mesmo depois de reveladas. Mais para trás ainda fica o maior de todos os traumas: o desaparecimento do pai, Jimmy, corretor de apostas que um dia saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. Nick acha que ele foi assassinado pela mafia. O irmão, Matt, um génio precoce no xadrez que se deixa vencer pelo conformismo, acha que ele simplesmente seguiu o seu caminho. Desde cedo, Nick e Matt olham para o mundo de forma muito diferente e essa diferença não se esbate com os anos, antes se acentua, à medida que o desencanto, o tédio e o alheamento vão tomando conta das suas vidas.
Nunca fugindo demasiado de Nick, um homem que chega à década de 90 psicologicamente à deriva e mortificado pela suspeita de que a mulher o engana com o melhor amigo, Submundo oferece-nos uma impressionante galeria de personagens secundárias memoráveis, entre as quais Klara Sax, que subiu a pulso no mundo da arte e pinta centenas de B-52 fora do activo, rodeados pelo deserto, como forma de assinalar o «fim de uma era», a da Guerra Fria, que era «grandeza, perigo, terror» mas «talvez mantivesse o mundo coeso»; uma freira que mergulha no mais fundo da miséria humana e se apega à hipótese de um milagre; o adepto nostálgico que instalou uma réplica do marcador gigante do Polo Grounds na sua cave; o Assassino das Estradas do Texas, com uma fixação por uma repórter da CNN; ou os colegas de trabalho de Matt, no local onde são concebidas as armas nucleares americanas, sob as colinas de gesso do deserto do Novo México, «ganzados gama» que «traziam consigo resquícios de uma incandescência dos anos sessenta, uma prontidão para se dedicarem compulsivamente a qualquer coisa».
Estas dezenas de personagens e respectivos sub-enredos intersectam-se sempre de forma subtil, como se houvesse uma trama que liga tudo a tudo. Exemplo: Nick acaba por adquirir a famosa bola (não para lembrar um feito glorioso mas para «comemorar o fracasso», já que era adepto dos Dodgers) e no fim do livro visita em trabalho o campo de testes nucleares, no Cazaquistão, onde deflagrou a bomba de 1951, fechando dessa forma, se assim se pode dizer, o círculo aberto pelas manchetes do New York Times lidas por Bronzini, professor de xadrez do seu irmão, Matt, e marido da referida amante de um só dia (Klara Sax, nem mais nem menos). Em pano de fundo, balizando as décadas, assistimos a momentos que fazem parte da memória colectiva norte-americana: o Sputnik brilhando nos céus como uma afronta, os hinos à abundância saídos das agências publicitárias de Madison Avenue (descritos numa sequência em que DeLillo parece fazer, dez anos avant la lettre, a sinopse de um episódio da série televisiva Mad Men), a crise dos mísseis em Cuba, a morte de Kennedy (via filme Zapruder), a guerra do Vietname, o grande apagão de 1965, o baile Preto e Branco organizado por Truman Capote no Hotel Plaza, etc.
Além de dominar a difícil arte do diálogo, DeLillo revela aqui todo o arsenal dos seus recursos de escritor, elevando a fasquia da qualidade literária até à estratosfera, tanto nas grandes cenas colectivas (veja-se o majestoso capítulo sobre a estreia de um filme perdido de Eisenstein no Radio City Music Hall) como na narração das pequenas tragédias domésticas. A natureza do trabalho com a linguagem, que recorre a um amplo espectro de registos (incluindo regionalismos e vários tipos de calão), torna ainda mais extraordinária a tradução de Paulo Faria, que para respeitar a escrita de DeLillo soube nalguns casos reinventá-la de modo a ser compreensível pelo leitor português (vale a pena cotejar, por exemplo, os monólogos de Lenny Bruce reinventados por Faria com os da edição original).

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no número 92 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges