Balada dos desterrados

O Retorno
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-671-098-9
Ano de publicação: 2011

Até agora, quase 40 anos após o processo da descolonização, ainda não aparecera um grande romance português capaz de contar, como merece ser contada (isto é, sem enviesamentos ideológicos ou saudosismos serôdios), a história do difícil regresso de meio milhão de pessoas à metrópole, nos tempos mais conturbados da década de 70. O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), é esse romance.
A autora não defende nem condena os «desterrados», antes ilumina o que acontece a uma família em dois momentos muito concretos: aquele em que já se perdeu tudo (saída de Angola) e aquele em que ainda não se tem nada (os primeiros meses de impasse, num hotel do Estoril, à espera de refazer a vida). O que se passou antes e depois é como se não existisse, está fora de campo. Dulce Maria Cardoso evita explicar o passado ou antever o futuro das suas personagens. O que lhe interessa é apenas aquele estranho purgatório em que caíram, o limbo entre existências diametralmente opostas.
Para reforçar este efeito de transitoriedade, quem conta a história é o mais novo da família, um adolescente que se encontra, também ele, entre dois mundos: a infância e a vida adulta. Com uma voz narrativa ainda à procura do tom certo, fugidia e por vezes caótica («não consigo mandar naquilo em que penso»), Rui absorve um turbilhão de acontecimentos, mas mostra-se muitas vezes incapaz de lidar com tanta realidade. Ele já tem barba (embora não justifique ida ao barbeiro), já fuma às escondidas, já aprendeu a guiar, já experimentou o sexo com raparigas negras, mas falta-lhe estofo emocional. Quando o pai é preso à sua frente, confundido com um branco assassino, desmaia – e nunca se perdoará por essa cobardia. A experiência na metrópole acaba por ser também a crónica do seu crescimento, da sua autonomia, embora ele nunca abandone uma certa candura que dá consistência e verosimilhança ao relato.
O primeiro capítulo é exemplar na forma como materializa a perda total de quem se vê obrigado a fugir de uma terra que considerava sua. A mãe de Rui, psicologicamente instável, cercada de demónios íntimos que os comprimidos não conseguem afastar, prepara as poucas malas para o voo da noite, enquanto o pai, frustrado por não se ter rendido às evidências em devido tempo, vai arrancando com uma faca as dálias bordadas na toalha do almoço. Ele quer queimar tudo, a casa e os camiões que explora, para que os «pretos» não se fiquem a rir. E há um silêncio que paira sobre todas as coisas (a guerra, a doença da mãe, a consciência de que «Angola acabou»), o silêncio que Rui encontra nos quintais vazios das redondezas, com «pneus quietos nas árvores como se fossem olhos parados no ar a fazerem-nos perguntas».
A chegada à metrópole, «acanhada e suja», de ruas estreitas «onde parece que nem cabemos», representa um choque: «era como se estivéssemos a entrar no mapa que estava pendurado na sala de aula». Com quartos a abarrotar de gente – restos humanos do «império cansado, (…) derrotado e humilhado», sempre a evocar idílios coloniais e a maldizer os políticos «traidores» –, a atmosfera do hotel torna-se irrespirável. A espera «faz com que os dias pareçam emperrados uns nos outros» e dificulta a integração na sociedade, na escola, no quotidiano de um país a meio de um processo revolucionário.
Há muitas coisas que Rui ignora. Sobre a passagem do pai pela prisão, sobre os demónios da mãe, sobre o amor. Na véspera do tão aguardado reinício, porém, os seus horizontes abrem-se como a paisagem que avista do terraço do hotel. E Dulce Maria Cardoso fecha o romance como o começou: demonstrando uma precisão narrativa e uma clareza de estilo absolutamente admiráveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges