Bibliofilia fatal

O Último Livro
Autor: Zoran Živković
Título original: Posledjna knjiga
Tradução: João Cruz
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 238
ISBN: 978-989-623-144-6
Ano de publicação: 2011

Do escritor sérvio Zoran Živković já conhecíamos um pequeno volume com seis contos fantásticos, Biblioteca, publicado pela Cavalo de Ferro em 2005. Claramente inspiradas em Jorge Luis Borges, essas histórias valiam pelas ideias fortes e engenhosas, já que as qualidades estilísticas ficavam a anos-luz do escritor argentino. Eram exercícios de uma inteligência provocatória, apontando para o lado negro da bibliofilia: os livros como maldição e a biblioteca como inferno (uma espécie de negativo do Paraíso borgesiano).
Em O Último Livro, permanece a sensação de ameaça. O livro mencionado no título é o derradeiro porque mata quem o abre. Quando os clientes da livraria Papyrus começam a sucumbir, sem explicação que a autópsia detecte, entra em cena o inspector Dejan Lukic, um detective licenciado em literatura. Chega a pairar a hipótese de uma imitação de O Nome da Rosa, depressa afastada à falta de subtis venenos. Na verdade, Živković esconde bem o jogo até ao capítulo final (optando por um desenlace meta-literário que justifica a estranha sensação de «déjà lu» por parte de Lukic), embora pelo caminho use e abuse dos estereótipos do género policial.
O recurso a fórmulas estafadas (como a insistência em pesadelos simbólicos, obscuros mas iluminadores), o frouxo romance entre o inspector e a dona da livraria (regado a chá de figo) ou a seita apocalíptica que parece saída do Eyes Wide Shut, algures entre o grotesco e o risível, empurram o romance para baixo. Salvam-no as últimas páginas, as da revelação do mistério, pelo seu efeito retrospectivo e pelo modo como alteram, literalmente, a forma como as personagens se vêem a si mesmas (e ao mundo).

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Bibliofilia fatal”

  1. André on Junho 30th, 2011 21:21

    Fiquei bastante decepcionado com este livro. Muito mau, cheio de lugares-comuns, quase nenhuma profundidade.

  2. fallorca on Junho 30th, 2011 21:38

    «O livro mencionado no título é o derradeiro porque mata quem o abre.»
    Comprei o título anterior, mas ainda não li.
    A fazer fé em ti, e faço, se o anterior era borgeano, este será vila-mateano. Ver «Paris Nunca se Acaba»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges