Carreira de tiro

Maria dos Canos Serrados
Autor: Ricardo Adolfo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 218
ISBN: 978-989-672-157-2
Ano de publicação: 2013

Quase no fim de Maria dos Canos Serrados, a protagonista dá finalmente sentido ao título, quando espalha chumbo com uma caçadeira Baikal, arma potentíssima e de coice valente, mas tão maneirinha que cabe inteira na mala de contrafacção (Louise Vittone). A violência, porém, começa por ser verbal: «Velhinho, Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.» O livro abre assim e nunca mais volta atrás. Com as cartas em cima da mesa, pelo menos os leitores já sabem ao que vão.
O «velhinho» é o amante de Maria, um gigolô mulato que «faz» turistas flácidas em Armação de Pêra. Ausente, negligente, sempre mais preocupado com o meio-irmão, Jesus, do que com a sua «dama», a ele se dirigem as dezenas de mensagens (chamar-lhes cartas talvez seja um exagero) que compõem este muito irónico romance epistolar, uma narrativa tão alucinante e alucinada que faz figura de corpo estranho na pacatez da ficção literária portuguesa.
Ali para os lados da Linha de Sintra, consome-se muito «chocolate» (do que se fuma), muitos «tirinhos» de cocaína e smarties (pastilhas de todo o tipo, das anfetaminas aos speeds). Um dos cenários principais em que a acção decorre é um Bar e Salão de Fogo instalado num terceiro andar de um prédio de habitação, em Rio de Mouro, onde se pode disparar à vontade entre dois copos. Neste submundo, circulam marginais, raparigas que vão para bares de alterne em Espanha, malta que anda de autocarro no «IC» mas também actualiza o perfil no «Face», aproveitando o tempo livre do desemprego (porque «o único trabalho que há praí é o de procurar o trabalho que não há»).
Em paralelo com a crise afectiva de Maria, assistimos à crise maior, económica, laboral. Ela trabalha numa empresa à beira da falência, das que já não pagam a ninguém. No palco da tragicomédia, sucedem-se uma «doutora» aldrabona, um sindicalista que não é melhor do que a «doutora» aldrabona e se arma em «grande líder», além dos vários credores (com a Segurança Social à cabeça). Ocupações e greves estão longe de resolver o assunto para os mais fracos e os salários em atraso, que é impossível cobrar a bem, acabam por ser cobrados a mal. Eis a imagem, extremada, em traço grosso, de um país insolvente.
O que torna singular a obra de Ricardo Adolfo é a linguagem: corruptelas, pontapés na gramática, palavras que se fundem umas com as outras, neologismos («orgasmar», «vacabra»). Enfim, a oralidade suburbana em todo o seu esplendor. Encontramos igualmente alguns ecos da Crónica dos Bons Malandros, mas em versão mais áspera, mais suja, mais violentamente explícita e explicitamente violenta, talvez até com genes cinematográficos de Quentin Tarantino (atente-se na cena em que há cinco armas de fogo versus duas navalhas). Mas se os gatunos no livro de Mário Zambujal queriam roubar jóias na Fundação Gulbenkian, agora o objecto do roubo são milhares de cartões pré-pagos com chamadas telefónicas. Sinal dos tempos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Carreira de tiro”

  1. Nídia on Fevereiro 20th, 2013 22:46

    Olá
    Sigo o seu blogue há já alguns anos, sou apaixonada pela Literatura e tenho pena de não poder fazer desta paixão a minha profissão. Algumas (poucas) vezes tenho comentado aqui no blogue e quero realmente dar-lhe os parabéns pelo “serviço publico” que continua a prestar.
    Já fui uma leitora de alguns Livros por mês, agora vou lendo o que consigo, por isso as leituras são ainda mais seleccionadas, e muitos desses Livros são aqueles aos quais o José Mário atribui maior nota na classificação. estou curiosa com o Ricardo Adolfo, será que tem outro Livro que conheça dele, que ache mais marcante do que este?
    Obrigada desde já, e continuação de excelente trabalho,
    Nídia

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges