Carta ao pai

giralt

Tempo de Vida
Autor: Marcos Giralt Torrente
Título original: Tiempo de Vida
Tradução: Telma Costa
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 158
ISBN: 978-989-8580-26-9
Ano de publicação: 2014

Neste livro, Marcos Giralt Torrente narra a dificílima relação com o pai – contada logo após a morte deste, a culminar ano e meio de um declínio físico que os reaproximou. Como é sabido, na história da literatura há muitos relatos deste tipo, de Kafka a Philip Roth. O escritor espanhol, porém, não quis apenas replicar um modelo que tende para a elegia ou para o ajuste de contas. Tempo de Vida não é uma coisa nem outra, embora tenha momentos elegíacos e outros de balanço frio dos «fundos desencontros» entre trajectórias de vida divergentes.
O que torna esta obra singular é a sua espantosa (e por vezes dolorosa) sinceridade, a sua absoluta transparência. Nada nos é ocultado. Nem os escrúpulos do autor a lidar com o material inflamável da memória, nem as hesitações estéticas e éticas, nem as dúvidas persistentes sobre o rumo a dar ao que tem entre mãos: «(…) não sabia que livro queria escrever. Ou, se sabia, não sabia como fazê-lo. Ou não tinha sequer decidido o que contar e o que calar. Ou a vida do meu pai, vendo bem, não era assim tão romanesca. Ou simplesmente duvidava de que interessasse a alguém.» Mais do que uma ideia motriz, «a única coisa que sentia era um grande vazio». E é através desse vazio que o autor avança, procurando compreender «o que perdemos, em que pontos nos atolámos».
Emerge então a figura desse pai distante, pintor que ficou aquém de uma grande carreira, perdido nos seus equívocos e nos «labirintos femininos». Tudo é exposto à luz mais crua, tanto a «zanga perpétua» como a doença final, que permite uma redenção mútua. Não deixando de convocar erros e arrependimentos, tanto os próprios como os alheios, sempre com uma lucidez feroz, Giralt Torrente leva-nos «ao vero centro da dor», única forma de fechar o círculo e de o reabrir novamente, através do filho que há-de vir: «Gostaria de conservar alguma coisa do melhor do meu pai para que lhe chegue através de mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges