Coisas terríveis em movimento

Ferrugem Americana
Autor: Philipp Meyer
Título original: American Rust
Tradução: Ester Cortegano
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 411
ISBN: 978-972-25-2283-0
Ano de publicação: 2011

A imaginária cidade de Buell, onde Philipp Meyer centra a ação de Ferrugem Americana, um dos mais aclamados romances de estreia dos últimos anos, fica no vale do Mon, a sul de Pittsburgh (Pennsylvania), em tempos um grande pólo industrial que produzia aço para todo o país, mas condenado ao declínio económico desde os anos 70. Uma a uma, as siderurgias fecharam as portas e «o vale entrou em colapso». As sirenes que assinalavam as mudanças de turno — com milhares de operários a sair das fábricas e outros milhares a entrar — calaram-se de vez. Os apitos já só se ouvem na memória dos nostálgicos: «apenas vinte anos antes, houvera tanta vida em Buell que era inconcebível, era impossível aceitar a ideia de que um lugar pudesse ser destruído tão rapidamente». Mas a decadência, vertiginosa, chegou mesmo. Tal como a miséria e o desemprego de longa duração. Por muito que pareça inconcebível, os EUA começam de facto a «andar para trás como nação, provavelmente pela primeira vez na História».
Meyer parte justamente daqui, deste «ignóbil» reverso do Sonho Americano. Não espanta por isso que as suas personagens pareçam (embora umas mais do que outras) condenadas à desistência e «a fazer tudo de maneira errada». Presas a uma cidade decrépita, de onde não puderam ou não quiseram sair, elas deixaram-se apanhar pelos «tempos sombrios». Na verdade, não pedem mais do que «uma vida com um pouco de dignidade», mas até isso parece um desígnio difícil de cumprir, quando a corrosão que devora as fábricas em ruínas se estende às relações sociais e aos pequenos gestos do quotidiano. A dada altura, alguém refere que em Buell há «coisas terríveis em movimento», só discerníveis quando já é «demasiado tarde».
Uma dessas «coisas terríveis» materializa-se numa tragédia, protagonizada por Isaac English e Billy Poe, amigos desde a escola secundária. Hoje com 20 anos, eles arrependem-se de terem ficado na terra natal, em vez de procurarem a sorte noutras paragens, como Lee, irmã de Isaac e ex-namorada de Poe, que se licenciou em Yale, onde encontrou o marido endinheirado. Se Billy, potencial estrela do futebol americano, ficou por vontade própria e casmurrice, recusando as bolsas de estudo universitárias que lhe ofereceram, Isaac foi vítima da escolha de Lee. Com a partida da irmã, ele teve de ficar a cuidar do pai, incapacitado por um acidente de trabalho na siderurgia e sozinho depois do suicídio inexplicável da mulher, cinco anos antes.
Quando o livro começa, Isaac, o melhor aluno do condado, planeia fugir para a Califórnia e dedicar-se à astrofísica. No bolso leva quatro mil dólares, roubados ao pai, e a disposição aventurosa de um «Jack Kerouac Júnior». Mas a ingénua odisseia descamba logo ao princípio. Enquanto tenta convencer o amigo Billy a fazer-lhe companhia, os dois são apanhados por uma bátega e abrigam-se numa velha fábrica abandonada. Chegam então três vadios que reclamam o espaço e Billy, incapaz de resistir a um confronto físico, faz-lhes frente. Resultado: um dos sem-abrigo acaba morto. A partir deste nó narrativo, a «coisa terrível» foi posta em movimento e não mais parará.
Em pânico, Isaac e Billy não avisam a polícia. Em vez disso, decidem seguir cada um o seu caminho. Isaac viajará escondido em comboios de mercadorias, antes de mergulhar numa espiral violenta: é espancado, assaltado, humilhado, perseguido, forçado a roubar em lojas, sujeito à fome e ao frio mais extremos. Billy é detido mas recusa-se a prestar declarações, para não incriminar o amigo, acabando numa cadeia de alta segurança, onde o seu mau feitio o incompatibiliza com os vários gangs de prisioneiros e o deixa marcado como alvo a abater.
Esta narrativa poliédrica não se fixa, porém, apenas nas descidas ao inferno, em paralelo, de Isaac e Billy. Há outras quatro personagens centrais, que vão assumindo à vez o protagonismo de cada capítulo: Lee; Grace, a desesperada mãe de Billy; Henry, o pai de Isaac; e Harris, o chefe local da polícia e amante intermitente de Grace, indeciso quanto à possibilidade de livrar Billy do sarilho em que se meteu (como já fizera anteriormente, num caso menos grave). Recorrendo com mestria à técnica do monólogo interior, Meyer entra na cabeça destas pessoas e acompanha os seus caóticos pensamentos, os raciocínios obsessivos, as dúvidas, angústias e medos, o sentido de lealdade e os dilemas morais (particularmente agudos no caso de Harris).
Ferrugem Americana pode ser lido como um romance pessimista sobre uma época e um lugar amaldiçoados, prestes a regressar ao «estado primitivo» em que é a natureza quem mais ordena. Mas, se lermos com atenção, apercebemo-nos do infinito cuidado e respeito que o autor dedica às suas figuras humanas, aos hérois possíveis desta história sem heroísmo. Mesmo quando mergulham nas trevas, há sempre nestes homens e mulheres um lampejo da tal «dignidade» a que aspiram até os proscritos entre os proscritos. Compreendemos então a escolha para epígrafe de uma frase de Camus, segundo a qual em tempo de pestilência aprendemos «que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar». Ela podia ser apenas uma inspiração. Mas é mais do que isso. É todo um programa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Coisas terríveis em movimento”

  1. Jair on Outubro 5th, 2011 19:40

    Poxa, fiquei curioso acerca deste livro. Procurei e não encontrei nenhuma notícia de que será lançado aqui no Brasil brevemente. De todo modo, valeu.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges