Com a cabeça debaixo do braço

A Última Sessão – A edição dos textos malditos de Luiz Pacheco
Autor: Pedro Piedade Marques
Editora: Montag
N.º de páginas: 40
ISBN: 978-989-2030-19-7
Ano de publicação: 2012

Além de designer gráfico, tradutor e responsável por um excelente projecto editorial (Livros de Areia, cujo único defeito está na parcimónia do catálogo), Pedro Piedade Marques é também autor de um blogue de referência sobre a arte de criar capas para livros. Em Montag, vem recolhendo textos de análise – muito bem escritos, organizados e ilustrados – que revelam o seu conhecimento do métier, uma vasta erudição técnica e um fervor de enciclopedista.
Agora, aproveitou a marca do blogue para lançar um livrinho que assinala os 35 anos da publicação «oficial», em 1977, dos Textos Malditos de Luiz Pacheco, pelas edições Afrodite (ao fim de muitos avanços e recuos, num processo moroso de recuperação das prosas proibidas pela censura, ou perdidas na «gaveta», que fora iniciado logo após o 25 de Abril de 1974). Graficamente exemplar, A Última Sessão revela-nos em detalhe vários aspectos da génese deste livro problemático, em particular a forma como nele convergiram as energias e o talento de três homens: o próprio Pacheco, de «vida caótica» e apostado em pôr a render, muito ao seu jeito, uma «requentada» mas brilhante «antologia abjeccionista»; o editor Fernando Ribeiro de Mello, um dandy sofisticado que se via como o Jean-Jacques Pauvert português; e o ilustrador Henrique Manuel, que explorou a figura de um «Pacheco-marioneta do teatro de si mesmo», mostrando-o na capa com a cabeça debaixo do braço.
Para Pedro Marques, há nos Textos Malditos uma dimensão «crepuscular», no sentido em que marca o «início do correr de cortinas» na carreira destes três criadores. É uma tese discutível, até nas suas metáforas teatrais, mas impecavelmente argumentada.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges