Uma criança perdida no coração das trevas
Bestas de Lugar Nenhum
Autor: Uzodinma Iweala
Título original: Beasts of No Nation
Tradução: Carla da Silva Pereira
Editora: Antígona
N.º de páginas: 163
ISBN: 978-972-608-199-9
Ano de publicação: 2008
Publicado em 2005, quando Uzodinma Iweala tinha apenas 23 anos, Bestas de Lugar Nenhum é um romance de estreia arrebatador. Embora nascido nos EUA, onde se licenciou na Universidade de Harvard, Iweala tem raízes familiares na Nigéria e foi depois de investigar o fenómeno dos soldados-criança – esses miúdos utilizados como carne para canhão (da Serra Leoa ao Uganda) –, que se aventurou a contar a terrível história de Agu, habitante de um nunca nomeado país da África Ocidental.
Vítima das circunstâncias, Agu é literalmente engolido pela guerra. De um dia para o outro, a família desfaz-se. A mãe e a irmã fogem de autocarro, o pai é assassinado e ele acaba nas mãos de um grupo de rebeldes, «exército» sem uniforme que o alista à força. Como é muito pequeno e fisicamente frágil, ao ponto de não aguentar o peso da espingarda quando é preciso dispará-la, dão-lhe uma faca. E embebedam-no com o óleo usado na lubrificação das armas, droga forte («é como chupar pedra ou comer lápis») que dá coragem aos cobardes e dores de cabeça a toda a gente.
Na aldeia onde nasceu, a passagem à idade adulta fazia-se sacrificando um boi, em cujo sangue os rapazes se banhavam. No mato, o simbolismo do ritual de iniciação é substituído pela aprendizagem do horror: contra a sua vontade, Agu mata à catanada um inimigo que se rendera. E assim se torna homem. Ou melhor, assim embarca na descida aos infernos da bestialidade. «Gente toda dão um animal qualquer, ninguém é humano já», resume ele, depois de perder simultaneamente a noção do tempo e a certeza de existir uma fronteira que separa o bem do mal. Acompanham-no outros desgraçados, tão ou mais miseráveis do que ele. E dispostos a tudo: massacres, pilhagens, violações, os vários gradientes da barbárie.
Agu consegue por vezes recordar o passado idílico e antever o futuro distante (em que espera ser médico ou engenheiro): «O meu pensamento é assim como estrada, vai sempre em frente sempre em frente, até que chega muito muito longe daqui. Às vezes penso na vida que tenho à frente, muito à frente, e às vezes penso na vida que deixo para trás.» O presente, contudo, desengana-o a cada passo dado numa paisagem apocalíptica, onde as cores se desvaneceram e as coisas parecem feitas de vidro, «que parte se tocas com muita força». Ao cansaço junta-se a fome e uma dor física incompatível com a esperança. Mesmo quando evoca a Bíblia e reza a Deus, Agu sabe que «as palavras vão todas ter ao Diabo».
Não se limitando a descrever com eficácia este processo de desumanização em curso, Iweala quis narrar a história na primeira pessoa, quis entrar na cabeça (e no corpo) do seu protagonista. Para isso, criou uma linguagem específica para Agu, um registo próximo da transcrição oral, feito de frases partidas, sem a «mordaça» da sintaxe correcta e de outros «salamaleques gramaticais». Que a tradutora, Carla da Silva Pereira, tenha conseguido reinventar essa linguagem dentro de um «edifício» verbal português, não perdendo um grama do seu imenso poder evocativo, é da ordem do prodígio.
Avaliação: 8,5/10
[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
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