Críquete & melancolia

Netherland – Terra de Sombras
Autor: Joseph O’Neill
Título original: Netherland
Tradução: Patrícia Xavier
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 252
ISBN: 978-972-25-2004-1
Ano de publicação: 2009
Não há nada pior, quando se começa a ler um livro, do que o excesso de expectativa. Sobretudo quando a obra em causa ainda não passou pelo crivo do tempo, o mais implacável dos juízes literários, nem se instalou confortavelmente no cânone (como, por exemplo, Dom Quixote ou Moby Dick). Para mim, o problema voltou a colocar-se em relação a Netherland, de Joseph O’Neill, romance de 2008 que teve uma recepção apoteótica por parte da crítica nos EUA (com entrada em quase todas as listas de melhores livros do ano), ganhou o Prémio Pen/Faulkner e ainda conseguiu o feito de se imiscuir nas restritas leituras ficcionais do Presidente Obama. Quando a fasquia é colocada lá muito em cima, tendemos a desconfiar. Mas felizmente o espectro da desilusão dissolveu-se em menos de nada.
Há duas linhas narrativas principais que atravessam Netherland. A primeira é a história de como Hans van den Broek, analista financeiro holandês a viver em Nova Iorque desde 1998, lida com a crise que ameaça o seu casamento. Logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, muda-se com a mulher (Rachel) de um loft em Tribeca para um apartamento no Chelsea Hotel, solução temporária que se eterniza, enquanto a insegurança que paira no ar vai minando os alicerces da família. Incapaz de suportar a lógica militarista da Administração Bush, sobretudo após a invasão do Iraque (2003), Rachel decide regressar a casa com o filho de ambos; isto é, a Londres, a cidade onde iniciaram a sua vida em comum. Hans fica então a morar sozinho em Nova Iorque, apanhado desprevenido por uma «infelicidade» que nunca antes sentira e aparentemente incapaz de escapar à paralisia emocional.
É então que emerge a segunda grande linha narrativa do livro, protagonizada por Chuck Ramkissoon, um imigrante caribenho que é o típico chico-esperto bem falante, com vários negócios duvidosos (uma agência imobiliária, um restaurante sushi-kosher, uma rede de jogo ilegal) e um grande sonho, digno da ideia de american dream: construir um gigantesco estádio de críquete em Nova Iorque. Para ele, este desporto inglês que só é jogado pelas comunidades imigrantes tem uma nobreza, um «ângulo moral», que o tornam a metáfora perfeita do que deveria ser uma nova América, pós-imperialista, aberta ao mundo e mais civilizada.
Antes do colapso das ilusões, provocado por uma certa «incompletude da fantasia», Chuck consegue introduzir Hans no fascinante submundo das equipas de críquete nova-iorquinas e dá-lhe a descobrir uma outra cidade, dos bairros mais pobres à miscelânea étnica de Coney Island Avenue, «aquela avenida imunda de comércio barato que cria um contraste quase surreal com os quarteirões residenciais que atravessa», uma «faixa de balbúrdia» que é uma amostra da «verdadeira Brooklyn». Mesmo se Chuck acaba mal (assassinado), são as transformações por ele induzidas em Hans que o ajudam a resolver os seus nós e dilemas existenciais, abrindo as portas à reconciliação familiar e a um belíssimo capítulo final, tão comovente quanto subtil.
Além de articular com espantosa eficácia os vários tempos desta história, Joseph O’Neill eleva-se muito acima da mediania devido ao requinte da sua prosa, sempre precisa, muitas vezes exaltante, e pródiga em pequenos achados poéticos (exemplo: as ruas que «cintilavam como se em cada uma delas houvesse uma madrugada»).
Avaliação: 9/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
3 Responses to “Críquete & melancolia”
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Cada vez que leio a sinopse deste livro, coloco no lugar e não começo a leitura. Parece-me que a trama é um tanto rocambolesca (não sei se o termo é entendido aí), ou seja, cheia de peripécias, aventuresca.
Mas, vc deu 9/10. Vou pensar melhor no caso.
JMS: Feliz Natal para vc e os seus. Receba um abraço transatlântico e caloroso ( o verão começou ontem, céu e mar pra lá de azuis).
Bom Natal e boas leituras.
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