Crónica de um assassínio anunciado
O Caso das Mangas Explosivas
Autor: Mohammed Hanif
Título original: A Case of Exploding Mangoes
Tradução: Teresa Curvelo
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 328
ISBN: 978-972-0-04512-6
Ano de publicação: 2009
Em Um Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, Hercule Poirot desvenda um homicídio colectivo. Certa manhã, o Sr. Ratchett aparece morto com doze facadas e só a astúcia do detective belga permite provar que todos os doze suspeitos estão envolvidos, contribuindo com um golpe cada para uma elaboradíssima vingança. Em O Caso das Mangas Explosivas, Mohammed Hanif utiliza um esquema semelhante para contar o atentado que vitimou, a 17 de Agosto de 1988, o General Zia ul-Haq, na altura Presidente do Paquistão há 11 anos. Após assistir a um exercício militar no deserto de Bahawalpur, Zia regressava a Islamabade num Hercules C130 que explodiu no ar – uma espécie de Camarate paquistanês que tem alimentado, nas últimas duas décadas, muitas teorias da conspiração.
Tal como Christie, Hanif não elimina quaisquer possíveis explicações para a misteriosa queda da aeronave; pelo contrário, acumula-as. E é assim que ficamos sem saber ao certo o que esteve mesmo na origem da morte de Zia. Pode ter sido a libertação de gases tóxicos no ar condicionado da cabina, podem ter sido as mangas explosivas do título, pode ter sido um corvo que cumpre uma maldição, pode ter sido a ponta envenenada de um sabre, ou tudo isto ao mesmo tempo, na linha das facadas redundantes que vitimaram o Sr. Ratchett.
Neste romance de estreia que não parece de estreia (tal é a solidez narrativa), a acção avança em duas linhas paralelas. De um lado, o relato na primeira pessoa de Ali Shigri, cadete da Força Aérea que pretende vingar a morte do pai, um coronel cujo aparente suicídio atribui a uma ordem do general Zia. Do outro, a descrição da paranóia securitária em que vivia o ditador, rodeado de generais que lhe cobiçavam a liderança e de agentes da CIA interessados apenas em derrotar os soviéticos no Afeganistão.
Com inteligência, verve e muito humor, Hanif ergueu uma sátira poderosa e ácida sobre um período negro da História do país onde nasceu. Ao seu sarcasmo demolidor nada escapa: nem os aspectos mais ridículos do exercício do poder autoritário, nem os primeiros passos de uma islamização radical, nem os absurdos da vida militar, nem menos ainda a hipocrisia diplomática (exposta numa cena em que Osama Bin Laden, então um apoiante dos mujahedines, recebe apoios e incentivos numa festa da Embaixada norte-americana).
Escolhido para a longlist do Man Booker em 2008, este livro é uma magnífica revelação – melhor ainda do que a estreia do indiano Aravind Adiga (Tigre Branco, Presença), que acabaria por vencer o mais importante dos prémios literários de língua inglesa.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 83 da revista Ler]
Comentários
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Olá, boa tarde.
Este seu texto não li, uma vez que ainda estou a ler o livro.
Quando acabar a leitura, voltarei para ler e tendo coragem comentar.
Cumprimentos