Damas & Valetes

O Homem do Buick Azul
Autor: António Garcia Barreto
Editora: Oficina do Livro
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-989-555-570-3
Ano de publicação: 2011
Eneias Trindade, o protagonista do romance O Homem do Buick Azul, de António Garcia Barreto, é um detective privado sui generis. Com um metro e oitenta de altura para noventa quilos, quase «gigante» se atendermos «à bitola do português médio», faz-se valer das manhas de antigo polícia e dos músculos de ex-pugilista. Fumador compulsivo de cigarrilhas, leitor de Camilo, bom garfo (gosta de frequentar casas de pasto e leitarias), Eneias anda tristonho com a fuga da amada Rosarinho, que vários namoricos e flirts com outras mulheres não chegam a afastar do seu pensamento. A história dos desencontros com Rosarinho vem de um livro anterior (A Mulher da Minha Vida, 2008), bem como o Padre Angústias, agora reduzido à figura de mentor cujos aforismos pontuam a narrativa.
Um desses ensinamentos — «Este país tem muito sol por fora e muita sombra por dentro» — retrata na perfeição o Portugal da época (1933). O cinzentismo paira sobre todas as coisas e sufoca Lisboa com cheiros ácidos a «trapo velho», não conseguindo mesmo assim eclipsar a beleza e vibração da cidade. «No reino dos céus morava Deus; em São Bento, Salazar.» Mais modesto, Eneias vive numas águas-furtadas e mantém a custo uma pequena sala de trabalho num andar de escritórios. É aí que recebe os seus clientes, quase sempre necessitados de ajuda em casos de «damas & valetes»: grandes intrigas e pequenos mistérios de gente abastada. Casos como o desaparecimento de um sportsman chamado Álvaro Durval, conhecido produtor de vinho do Porto que se eclipsou e os amigos querem encontrar, embora com menos empenho do que seria de prever.
Na sua investigação, Eneias destapa pouco a pouco um mundo que cruza a alta roda da sociedade lisboeta com o bas-fond dos bairros populares. Há de tudo: senhoras elegantes e automóveis americanos, rufias e proxenetas, polícias sem grandes problemas em recorrer à tortura e até um anão travesti. De pistola Parabellum no coldre, o detective vai da capital a uma quinta no Douro, passando pelo Porto, para desmontar uma teia sem pontas soltas e que reserva ao leitor um desenlace surpreendente.
A escrita de Garcia Barreto é simples, directa e bastante eficaz, embora revele algumas fragilidades estilísticas. Volta não volta, salta um cliché ou uma frase pirosa (como esta: «O dia amanheceu da cor do sorriso das crianças»). Em certos momentos, a narrativa tem ainda tendência a perder-se nos meandros psicológicos de Eneias, nos seus dilemas afectivos banais, mas nada que comprometa o ritmo de uma história bem contada.
Avaliação: 5,5/10
[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]
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