Dentro da vida

Poesia Reunida
Autor: João Luís Barreto Guimarães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 314
ISBN: 978-972-564-971-8
Ano de publicação: 2011

As edições que reúnem a obra completa de um poeta num só volume têm duas grandes vantagens. A primeira é permitir-nos o acesso a livros que não adquirimos em devido tempo e entretanto desapareceram das livrarias. A segunda é a leitura da obra como um todo, com as suas evoluções, rupturas, continuidades.
No caso de João Luís Barreto Guimarães, autor de sete livros, a Poesia Reunida permite assinalar três fases no seu percurso (ou «três andamentos distintos», como sugere José Ricardo Nunes, num excelente posfácio). O núcleo inicial corresponde aos três primeiros livros (1987-1994), nos quais JLBG explorou com grande sentido lúdico um modelo clássico (o soneto), sujeitando-o a todo o tipo de experimentações. Vemos assim surgir poemas com formas geométricas; com errata; com enigmas e respectiva solução no fundo da página; poemas que se ligam e apagam; um que está riscado como certos discos antigos; ou ainda um outro sem o ‘b’, porque «faz um mês que se perdeu / a tecla da letra» na Corona Four, «uma azerty americana já com uma certa / idade». Há depois um belo livro de poemas em prosa, Lugares Comuns (2000), escrito durante um ano, sempre à quinta-feira, no Café Corcel (Porto). Exemplar na arte da observação, o poeta recolhe acasos e gestos, pequenas epifanias, histórias breves, o trabalho da melancolia. Uma melancolia que ganha terreno na terceira fase, a dos últimos livros, muito atentos aos rituais quotidianos, aos estragos que a rotina provoca nos corpos e nos espaços domésticos, ao confronto com a ideia da morte e da perda.
Por muito que JLBG, médico de profissão, afirme que a poesia é uma «doença» que não se deseja a ninguém, a verdade é que ele só sabe escrever «de dentro da vida» e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges