Depois do acidente

Por Este Mundo Acima
Autora: Patrícia Reis
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 220
ISBN: 978-972-20-4634-3
Ano de publicação: 2011

O quinto romance de Patrícia Reis decorre numa Lisboa pós-apocalíptica, devastada por um misterioso «acidente» global cujos contornos nunca chegamos a conhecer com precisão. Entre ruínas, Eduardo, um antigo editor de meia-idade, outrora altivo e poderoso, vê-se humildemente reduzido a uma condição animalesca quando descobre que a «existência civilizada» acabou de vez (não há electricidade, nem água canalizada, nem qualquer ordem social).
Enquanto afina a arte da sobrevivência, Eduardo agarra-se ao único vínculo que o liga à sua vida anterior: a memória. Através de anotações manuscritas e listas que guarda em caixas de sapatos, evoca o círculo íntimo dos seus amigos: Jaime, o galerista; Lourenço, o pragmático, «político nas horas vagas»; e sobretudo Sofia, a filha rebelde de pai militar, mulher tão sozinha que ouvia o seu corpo a envelhecer, portadora de um segredo que Eduardo só descobre agora, quando já é tarde demais. No meio do negrume, surge depois a improvável esperança, através de um miúdo desembaraçado (Pedro) e de um livro inédito, anterior ao acidente, mas que «fala do futuro e da forma como não seremos capazes de combater um lado mais forte das coisas terríveis» (ou seja, de um futuro que se tornou o presente). Cada um à sua maneira, salvam Eduardo e dão sentido à sua velhice, despertando nele uma bondade que a arrogância pré-catástrofe não deixava antever.
Hino à amizade, ao poder redentor da arte (sobretudo a literatura, mas também a música) e à crença no lado bom dos seres humanos, esta é uma narrativa em que «tudo se mistura como tintas a desfazer-se em água»: as histórias, os tempos, as ilusões, as perdas, os recomeços. Se «todos os bons romances são interrogações», como defende Eduardo, então este é sem dúvida um bom romance.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Depois do acidente”

  1. Sebastião R Bugalho on Novembro 22nd, 2011 19:07

    nao poderia concordar mais (a minha ausencia de maiusculas e preguiça, nao uma tentativa de valter hugo maezar o comentario)

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges