Desafiar a morte junto ao Mar Cáspio

Baku, Últimos Dias
Autor: Olivier Rolin
Título original: Bakou, Derniers Jours
Tradução: Manuela Torres
Editora: Sextante
N.º de páginas: 169
ISBN: 978-972-0-07156-9
Ano de publicação: 2012

Numa das histórias reunidas em Suite no Hotel Crystal, de 2004 (editado pela ASA em 2006), Olivier Rolin imaginou o suicídio de uma personagem com o seu nome, no quarto 1123 do Hotel Apcheron, em Baku. O disparo da pistola Makarov de 9mm só existia na ficção, mas a nota biográfica na badana do livro criava uma certa ambiguidade, ao assimilar como verdadeira essa morte imaginária e futura: «Boulogne-Billancourt, 1947 – Baku, 2009». Estávamos, evidentemente, no campo do mais puro jogo literário. Ainda assim, os amigos de Rolin, ao verem aproximar-se a fatídica data, pediram-lhe que se mantivesse longe, muito longe, da capital do Azerbaijão. Sem surpresa, esses avisos só o acicataram: os «alertas amistosos fizeram nascer em mim a ideia de que eu devia forçosamente ir a Baku em 2009, e permanecer lá o tempo suficiente para dar à ficção sobre a minha morte nas margens do mar Cáspio (…) uma hipótese razoável de se realizar».
Durante a viagem de avião, começou a ler um ensaio de Pierre Bayard que defende ser a escrita «o lugar de uma obscura presciência daquilo que ainda não sucedeu», dando exemplos de escritores (Émile Verhaeren, Virginia Woolf) que anteciparam nos livros o seu fim. Se desafiar a morte através da literatura pode revelar-se um exercício fatal, Rolin aterrou em Baku decidido a correr esse risco. Logo à chegada, porém, informaram-no de que o Hotel Apcheron fora demolido dois meses antes. Desaparecia o cenário, o ponto de encontro, mas permanecia a cidade. Solução: prolongar o desafio, a ver se ele se cumpriria de outra maneira qualquer.
Baku, Últimos Dias é o relato dessa espera. Sem nada de concreto para fazer, o escritor assume o papel do observador nato, do flâneur que se deixa ir pelas ruas, do estrangeiro obrigado a criar rotinas, mesmo sabendo que não ficará mais de um mês: «O viajante longe de casa é como um dado lançado, rola por momentos, hesita, vacila e depois encontra o equilíbrio e não se mexe mais.» Rolin passeia pela Cidade Velha com uma previsibilidade kantiana, sob um céu de malva onde rodopiam andorinhas, rente às paredes com tapetes coloridos e «ritmos de vitral». Lembra o passado da capital azeri (as mudanças onomásticas que acompanharam as mudanças de regime político) e a inevitável sobreposição de vários tempos, cada qual deixando a sua marca num palimpsesto urbano em que «a cidade moderna traduz e trai as cidades antigas». Sob as belas varandas de madeira, respira-se o presente pós-soviético em que o dinheiro do petróleo se materializa em automóveis «monumentais de um negro lustroso», comparados a irónicos «carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban».
Depois, a viagem amplia-se. Rolin atravessa a bacia do Cáspio (até ao Turquemenistão), visita complexos petrolíferos «paleo-industriais», deambula por cemitérios, vai à ópera, descreve encontros com habitantes e membros da comunidade francesa (por vezes em tom sarcástico), e evoca figuras que passaram pela região, como o poeta-camponês Essenine, «anjo loiro» que se suicidou, ele sim, num quarto de hotel em São Petersburgo; ou Ronald Teague-Jones, o espião inglês que viveu rocambolescas aventuras durante a guerra civil russa. À falta da verdadeira morte, imagina as que poderia ter em Baku, quase todas violentas. Aqui e ali, ilustra a sua deriva com más fotografias (à maneira de W. G. Sebald). Mas o filtro do olhar é sempre a literatura. A dos outros e a própria. Rolin regressa aos seus livros anteriores como quem arruma os papéis. Esconderá este magnífico diário de viagem um testamento? Não, deixemos a grandiloquência de lado. «É um passeio no arame. Um monólogo em voz baixa, para ouvidos pacientes e atentos.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Desafiar a morte junto ao Mar Cáspio”

  1. Olivier Rolin: “É a matéria da escrita que me impõe a sua forma” | Bibliotecário de Babel on Março 1st, 2012 18:57

    […] espécie de desafio à morte. Quando regressou a Paris, vivíssimo, trazia na bagagem o esboço de Baku – Últimos Dias, um magnífico livro inclassificável (agora editado pela […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges