Desertos e desastres

Como se Desenha uma Casa
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-37-1616-0
Ano de publicação: 2011

Volume de poesia reflexiva, nostálgica e depurada, Como se Desenha uma Casa é o primeiro livro de originais que Manuel António Pina publica depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões em 2011. Chegado à «tardia idade», Pina ainda procura o que há de material nos objectos, o sabor do «pão primeiro», mas os poemas reflectem sobretudo a «agonia interminável das coisas acabadas». O tom é de desencanto. Os versos enchem-se de fantasmas, passos ao longe, corpos e nomes que se desvanecem, escombros. O que pulsava deixou de pulsar, extingue-se o canto numa vida «excluída / da clarividência da infância», o poeta atravessa uma paisagem em que tudo se perde ou envelhece, acumulação de «desertos» e «desastres», consciência da «mudez do mundo». Um mundo «onde o Lexotan se tornou literatura» e em que «a porta está fechada na palavra porta / para sempre». Mesmo morrer «não é fácil», porque «ficam sombras nem sequer as nossas, / e a nossa voz fala-nos / numa língua estrangeira».
A escrita de Pina surge neste livro mais rarefeita, «com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso», embora circule pelos temas de sempre: o «rumor» dos livros («É então isto um livro, / este, como dizer?, murmúrio, / este rosto virado para dentro de / alguma coisa escura que ainda não existe»); os labirintos da memória; os gatos (para quem nós, humanos, somos «intrusos, bárbaros amigáveis»); as citações explícitas (Paul Celan, Sá de Miranda) e as escondidas; a «possibilidade de sentido» das estruturas verbais de que se faz o poema (mesmo quando no fim não sobra nada: «Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra»).
Há também evocações de amigos: alguns desaparecidos, quase todos poetas. Na Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte, a despedida transformada em até já – «A gente vê-se um dia destes por Aí» – concentra toda a melancolia que atravessa o livro: «Há apenas agora um buraco aqui, / não sei onde, uma espécie de / falta de alguma coisa insolente e amável, / de qualquer modo, aliás, altamente improvável.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges