Desmoronamento interior

Pudor e Dignidade
Autor: Dag Solstad
Título original: Genanse og verdighet
Tradução: Liliete Martins
Editora: Ahab
N.º de páginas: 143
ISBN: 978-989-96340-1-5
Ano de publicação: 2009
Professor num liceu de Oslo há duas décadas e meia, Elias Rukla é um cinquentão em plena crise de meia-idade, «ligeiramente alcoólico» (gosta de misturar cerveja com aguardente) e casado com Eva Linde, uma mulher que foi em tempos de uma «beleza infinda» mas agora perdeu o encanto, engordou e transformou-se na enigmática figura feminina com quem toma o pequeno-almoço todas as manhãs, trocando um «bom dia» que é já só uma cristalização cordial do hábito.
Pudor e Dignidade narra o momento em que a existência de Elias Rukla implode. Numa segunda-feira de Outubro, diante dos seus alunos alheados, sob a habitual e densa nuvem do tédio adolescente, ele analisa pela enésima vez a peça teatral O Pato Selvagem, de Henrik Ibsen, um dos «quatro grandes» da literatura norueguesa. Ao aperceber-se de como treme, segundo a didascália, a voz de uma personagem secundária do drama (o Dr. Relling), Rukla intui uma possível nova leitura da obra. E entusiasma-se. Pouco a pouco, tacteia uma verdade alternativa para o texto de Ibsen, mas os estudantes ignoram a iminência de uma epifania e saem mal toca a campainha, deixando-o a meio de um raciocínio.
A indiferença dos estudantes é a gota que faz transbordar o copo e acciona uma espécie de gatilho. Consciente da natureza inútil do seu trabalho, do desperdício que representa a suposta formação intelectual daqueles jovens imaturos, Rukla explode de fúria e canaliza-a para o guarda-chuva que não abre quando devia. Em pleno pátio da escola, o professor destrói à bruta o objecto (com as varetas partidas a encherem-lhe de sangue a mão) e insulta uma aluna. Ele sabe que chegou o tempo da «catástrofe», da «queda», do caminho sem volta para quem já não encontra lugar numa sociedade que mudou depressa demais e na qual não se reconhece (nem é por ela reconhecido).
A explicação para a tragédia íntima, para o atormentado «desmoronamento interior», surge depois, à medida que a prosa lenta e circular de Solstad encena um labiríntico regresso ao passado, mergulhando-nos na memória de Rukla e recapitulando de forma não linear a história da sua vida, da amizade com Johan Corneliussen, o tipo brilhante de quem ele foi a «sombra carrancuda», à relação complexa com Eva, a tal mulher belíssima que Johan em tempos trocou pela liberdade em Nova Iorque. É todo um trajecto feito de acomodamentos, ilusões perdidas, melancolia e uma radical solidão: «Havia desaparecido uma época, e ele limitava-se a ficar sentado, a falar consigo mesmo.» Eis o triste fim dos desistentes, fixado por Solstad à falta de Thomas Mann, «o único escritor que podia ter escrito um romance sobre ele, Elias Rukla, e que podia tê-lo escrito sem comiseração, sem lamentações, e com uma rara ironia».
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Comentários
One Response to “Desmoronamento interior”
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
- Camané no ‘Avenida de Poemas’ em 18 de Maio de 2012
- Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’ em 18 de Maio de 2012
- Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além” em 18 de Maio de 2012
- Cinco poemas de Liberto Cruz em 17 de Maio de 2012
- A pirâmide alimentar dos escritores em 17 de Maio de 2012
- Por uma Esquerda que não permaneça, de braços caídos, passiva e mole, a assistir ao colapso de todas as suas conquistas em 16 de Maio de 2012
- Carlos Fuentes (1928-2012) em 16 de Maio de 2012
- Noites do ‘Mauritânia’ em 15 de Maio de 2012


Receba por e-mail
Facebook
Twitter
Delicious
DoMelhor
feed RSS
email diário






[...] manhã, o meu chapéu-de-chuva ficou digno de figurar nesta capa. O vento amarrotou-o em dois segundos, deixando-me à mercê da chuva diagonal. Omnipresente, a [...]