Electricidade e gelo

A Viúva Grávida
Autor: Martin Amis
Título original: The Pregnant Widow
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 530
ISBN: 978-972-564-862-9
Ano de publicação: 2010

Durante a última década e meia, cada novo romance de Martin Amis foi recebido pelo mundo literário anglo-saxónico com doses iguais de ansiedade e desconfiança: será desta que ele volta a ser o grande escritor que já foi? Após a celebrada trilogia londrina (Money, 1984; London Fields, 1989; The Information, 1995), Amis parecia ter entrado cedo demais na curva descendente da sua carreira. Por exemplo, O Cão Amarelo (2003) foi quase unanimemente massacrado pela crítica e Tibor Fischer dedicou-lhe mesmo uma frase assassina que entrou para os anais das frases assassinas: «É como se o nosso tio preferido fosse apanhado a masturbar-se no recreio de uma escola.» Entretanto, surgiram A Casa dos Encontros (2006), um romance curto que pode ser visto como a ilustração ficcional do libelo anti-estalinista Koba o Terrível (2002), e The Second Plane (2008), volume com ensaios, artigos e dois contos sobre o 11 de Setembro, o fundamentalismo islâmico e as novas guerras que esses fenónemos engendraram. Quanto ao romancista ambicioso que muito jovem conseguiu sair, com brilho e bravura, da sombra do pai (Kingsley Amis), das duas uma: ou estava de licença sabática, ou paralisado pela perspectiva de um irremediável falhanço.
Anunciado para 2008, mas sucessivamente adiado até ao início de 2010, A Viúva Grávida acaba por ser vítima das altíssimas expectativas criadas à sua volta. Quem julgou que este livro marcaria o regresso triunfal de Amis à ribalta literária, vai ficar desiludido. Mas se avaliarmos o livro apenas pelo que é, e não pelo que esperámos que fosse, a desilusão atenua-se. Por muito que nos exasperem os impasses narrativos e a sobrecarga de referências literárias (Ovídio, Kafka, Bellow, Larkin, etc.), a verdade é esta: o talento de Amis sobreviveu bastante bem à ingrata (para ele) primeira década do século XXI.
Através de um protagonista, Keith Nearing, com quem partilha muitas idiossincrasias – a data de nascimento, a bibliofilia, a obsessão etimológica, os complexos com a baixa estatura –, Amis observa de perto os dilemas e traumas de uma geração inteira: a sua. A geração dos babyboomers, nascidos no pós-guerra e poupados ao sacrifício nos campos de batalha, filhos da Era Dourada do progresso económico, mas também vítimas do terror nuclear, esse «medo mortal» que feriu de vez a ideia do amor («Porquê amar alguém, se toda a gente podia desaparecer?»). Ou seja, a «Gente dos Anos Sessenta», agora transformada em gente de sessenta anos, o Tsunami de Prata, esse pesadelo das estatísticas etárias, homens e mulheres com dificuldade em envelhecer, e mais ainda em confrontarem-se com os resultados práticos da revolução sexual que tiveram o privilégio de protagonizar – essa «viúva grávida» que adiou ad aeternum o nascimento efectivo de uma nova ordem social.
As reflexões mais amargas são feitas por Keith em 2003, quando finalmente conclui uma história iniciada em 1970, num castelo da provícia italiana, onde em tempos pernoitou D. H. Lawrence. É durante esse Verão na Campânia que a sua vida se decide e compromete. Junto à piscina, rodeado por amigos, todos na casa dos 20, ainda «a tentar descobrir quem eram» e entregues à liberdade de tudo poderem dizer ou fazer, Keith está como os outros num processo de metamorfose identitária, no seu caso focado na descoberta simultânea dos labirintos do erotismo (entre «cus e mamas», com as raparigas a comportarem-se como rapazes) e da literatura (ele vai devorando, um a um, os principais romances ingleses do séc. XIX). Quando a «pastoral platónica» se transforma em «farsa pornoteológica», algo acontece – e o rasto desse acontecimento envenenará a vida futura de Keith.
O principal problema de A Viúva Grávida está precisamente na secção italiana: demasiado longa, demasiado plana e circular, por vezes aborrecida. Há sub-intrigas e personagens a mais; falta economia narrativa. Esse Verão de todas as tentações e embaraços, em que Keith sonha com uma rapariga e acaba na cama com outra, ocupa cerca de 400 das 530 páginas do romance. Para os «intervalos» que nos mostram a vida do protagonista em 2003, bem como as restantes histórias (resumidas a mata-cavalos na secção final do livro), sobram pouco mais de cem páginas. Devia ter sido ao contrário.
A dada altura, alguém atribui ao carácter de Keith «uma estranha mistura de electricidade e gelo». O mesmo se pode dizer deste romance: umas vezes é eléctrico (com relâmpagos de génio), outras glacial (deixando-nos cobertos por uma fina camada de tédio). Ainda assim, vale a pena atravessá-lo de ponta a ponta, nem que seja para descobrir a forma comovente como Amis descreve a fragilidade do Keith cinquentão, exposto a um mundo «cheio de lâminas e de espinhos».

Avaliação: 8/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Electricidade e gelo”

  1. A ‘kakutanização’ de Martin Amis | Bibliotecário de Babel on Maio 13th, 2010 11:52

    […] O Rio das Flores, diz-se que o livro foi «kakutanizado». Por exemplo, a kakutanização de A Viúva Grávida, de Martin Amis (publicado em Portugal pela Quetzal), aconteceu no início desta […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges