Em câmara muito lenta

Point Omega
Autor: Don DeLillo
Editora: Picador
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-0-330-51238-1
Ano de publicação: 2010

Enquanto lia este 16.º romance de Don DeLillo – com edição portuguesa prevista para o final de 2011 (na Sextante) – lembrei-me de Klara Sax, uma das muitas dezenas de personagens de Submundo. Quando a vemos pela primeira vez, a artista conceptual de 72 anos está a ser entrevistada, por uma equipa da televisão francesa, sobre um trabalho megalómano em curso: a pintura de 230 aviões B-52, uma esquadrilha desactivada que durante décadas transportou bombas nucleares, garantindo o equilíbrio de forças da Guerra Fria. Estamos em 1992 e Klara assinala, com tinta sobre metal, o «fim de uma era» de «assombro e temor».
Um ano mais velho, Richard Elster, o protagonista de Point Omega, fica do outro lado da barricada. Agora estamos em 2006 e ele passou o último biénio ao serviço da Administração Bush, conceptualizando o esforço militar no Iraque, para que os «metafísicos dos serviços secretos» e os «fantasistas do Pentágono» possam justificar o injustificável. Um dia, farto das realidades falsas inventadas nos gabinetes militares, retira-se para um deserto «a sul de nenhures». Ao contrário de Klara Sax, porém, ele não cria nada. Limita-se a pensar na «verdadeira vida» e a sentir a desaceleração do tempo, que ali se torna «cego» e «enorme», quase palpável. Ainda ao contrário de Klara Sax, ele não quer falar sobre as suas experiências; e por isso vai adiando a resposta ao pedido de Jim Finley, cineasta falhado que foi até àquele fim do mundo para o convencer a entrar num documentário em plano único, a preto-e-branco, só um rosto contra a parede lisa e uma voz a dizer o que mais ninguém diz: a «verdade» por detrás das mentiras da guerra.
Finley conta ficar dois ou três dias mas a estadia prolonga-se, o tempo para Elster tem agora uma «escala cósmica» que o inclina para reflecções sobre geologia e extinção, ou sobre o Ponto Ómega do filósofo jesuíta Teilhard de Chardin, esse estádio final da consciência humana depois do qual se atingiria um «paroxismo» ou uma «sublime transformação». Pelo meio, surge Jessie, filha de Richard, uma rapariga como que desfasada da realidade à sua volta. Quando ela desaparece, a história, até aí quase estática, precipita-se num arremedo de thriller que logo se desfaz, deixando apenas a sombra de uma culpa resignada. Se fosse só isto, Point Omega seria pouco – apesar da escrita, de uma exactidão e beleza arrebatadoras.
Felizmente, DeLillo dá-nos a chave para a leitura desta parábola austera, de uma secura quase beckettiana, no prólogo e epílogo da narrativa. Nestes dois segmentos, cronologicamente anteriores aos episódios no deserto, as três personagens principais (e uma quarta, anónima mas fundamental), visitam no MoMa uma videoinstalação de Douglas Gordon, que transforma Psycho, de Hitchcock, num filme de 24 horas. A hipnose provocada pelas imagens em câmara muito lenta, abstractas e desprovidas da sua lógica funcional, abre clareiras de sentido: «Quanto menos havia para ver, mais ele se esforçava para olhar, mais ele via.» É esse esforço de percepção que a prosa de DeLillo também exige aos seus leitores. E vale a pena: o que antes parecia obscuro e baço, de repente brilha.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Em câmara muito lenta”

  1. Point Omega, de Don DeLillo « Autores e Livros on Maio 14th, 2010 0:25

    […] José Mário Silva quem afirma, no blog Bibliotecário de Babel, que o novo romance de Don DeLillo, aguardado no Brasil e em Portugal, exige grande esforço do […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges