Em tempo de indigência

A Terceira Miséria
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-641-281-4
Ano de publicação: 2012

No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, Hélia Correia parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização.
A par de Hölderlin, o da «meiga loucura», Hélia convoca Nietzsche, outro germânico condenado a enlouquecer, porque «uma vida / não chegaria para tanto adeus». E se o primeiro Friedrich «falava com fantasmas», o segundo foi o «anunciador», o que «caminha / sobre águas estagnadas e parece, / ao afundar-se, desenhar no lodo / Um mapa para o qual não há leitura». O que há é o «rasto extraordinário» da beleza, a imagem de uma Grécia idealizada, ardente, esplendorosa, que também chamou Byron e os «jovens da Europa», a Grécia da «rápida alegria / que levanta o cavalo em plena guerra», onde os sábios eram «enfurecidos gloriosos» que muito bebiam e cantavam, recitando a Ilíada de cor e desdenhando da paciência.
A helénica Hélia lamenta os «amados vestígios entretanto / pisados, arrastados pelos becos, / os véus de outrora presos na imundície» e enumera as três misérias que se foram abatendo umas sobre as outras. Primeiro, a «deserção dos deuses». Depois, a «miséria da interpretação / que tudo trai». E por fim a miséria actual: «A de quem já não ouve nem pergunta. /
 A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna
/ Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua.»
Esta é uma poesia do desencanto e da revolta diante do «apetrecho dos destruidores», essa «arrogância / pela qual o ocidente se perdeu». Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação. Por baixo do «ferro retorcido», acredita a autora dos «exercícios» sobre Antígona e Medeia, esconde-se uma Atenas que se mantém oculta, à espera de novos mensageiros que esvoacem pelo éter, alimentando a «ardência do improvável».
Como as ágoras de há 2500 anos, as praças voltaram a ser lugares onde se escuta a «fervilhante / palavra própria da democracia» e a «gente do Sul» que um dia «se desnorteou» encontrará decerto formas novas de se orientar. Uma esperança que se materializa, inteira, no poema final:

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]



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