Em trânsito

E a Noite Roda
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 246
ISBN: 978-989-671-112-2
Ano de publicação: 2012

Mais do que a história difícil de dois amantes que nunca se chegam verdadeiramente a encontrar, E a Noite Roda, primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho, é o relato belo e frágil de como uma extraordinária repórter arrisca trocar o terreno que conhece melhor – a realidade bruta mas concreta de um conflito internacional, testemunhado em Jerusalém, Gaza e Ramallah – pelos domínios muito mais incertos e obscuros da ficção, cartografando o que acontece a dois jornalistas, ela catalã, ele italiano (a viver em Bruxelas), depois de se apaixonarem um pelo outro, precisamente nos dias que antecederam a aguardada morte de Yasser Arafat.
Única narradora, cuja perspectiva das coisas se impõe do princípio ao fim, Ana começa a escrever para que a memória não se perca, para que a história com Léon, entretanto desaparecido, seja preservada, para que «exista». A uni-los estava «o desejo, o romance, o vendaval», uma certa impossibilidade de durar no tempo que os empurra para a experiência absoluta do sexo, forma de iludir a ameaça do vazio. «Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.» E não sabe mesmo. Daí a fuga permanente, tanto geográfica (reencontros nos lugares mais díspares) como emocional (uma comunicação que se vai esgarçando, entre e-mails e SMS).
Alexandra Lucas Coelho está ela própria em trânsito, percebe-se que experimenta ainda os códigos narrativos, mas a sua linguagem sofisticada, elegante, de um lirismo subtil, é já a de uma grande escritora.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges