Era uma vez um optimista

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Índice Médio de Felicidade
Autor: David Machado
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 255
ISBN: 978-972-20-5276-4
Ano de publicação: 2013

Na vida de Daniel, um português médio igual a milhões de outros, as «coisas ficaram muito difíceis muito depressa». Após anos de ilusória prosperidade, a crise atingiu em cheio o país e o que parecia sólido começa a ruir. Perdido o emprego numa agência de viagens, o cenário torna-se negro. A mulher, também desempregada, arranja trabalho no café do pai e instala-se em Viana do Castelo com os filhos. Sozinho em Lisboa, Daniel resigna-se a vender aspiradores, mas até esse biscate acaba por perder ingloriamente. Sem dinheiro para pagar a prestação, o banco fica-lhe com a casa e ele vê-se forçado a passar as noites no banco traseiro do carro. Quando este se incendeia, resolve invadir de noite o escritório onde trabalhava (ficou com as chaves) e dormir debaixo da antiga secretária.
Durante anos, Daniel encheu um caderno de capa preta com aquilo a que chamou o «Plano», uma espécie de «diário do futuro» onde esquematizava o que deveria acontecer lá mais à frente. Como é óbvio, nunca imaginou chegar aos 37 anos numa situação tão difícil e precária. «O que é que falhou? Onde é que as costuras não ficaram bem apertadas?» Ninguém sabe. E o mais difícil é encontrar forma de encaixar as expectativas do caderno de capa preta nos «novos limites da realidade». No lugar de Daniel, qualquer pessoa cairia no desespero, na depressão ou no cinismo. Acontece que ele é o mais resiliente dos optimistas. E por isso não desiste, não baixa os braços. Acredita que tudo se pode resolver, que ainda é possível «agarrar de novo as partes da minha vida que se tinham soltado, ajustá-las mais e melhor ao meu corpo».
Só que essas partes insistem em desligar-se. À distância, a relação conjugal entra num impasse e os filhos vão-se tornando estranhos (Flor, a mais velha, desiludida com o mundo, a sublinhar as palavras negativas dos jornais; Mateus, alienado pela internet). Os dois maiores amigos também lhe dão problemas: Xavier, um recluso voluntário, incapaz de sair de casa há 12 anos; e Almodôvar, recluso literal, preso depois de assaltar uma estação de serviço. Em tempos, os três criaram uma rede social «através da qual pessoas que precisam de ajuda e pessoas dispostas a ajudar» poderiam encontrar-se, uma ideia excelente que redundou num inexplicável fracasso. É a Almodôvar, o amigo inacessível (não aceita ser visitado na prisão), que Daniel se dirige em diálogo mental, falando-lhe das suas lutas e dilemas, mas também dos problemas em que Vasco, o filho de Almodôvar, se anda a meter por falta de acompanhamento familiar (faz parte de um gangue que humilha mendigos e sem-abrigo, publicando os respectivos vídeos online).
David Machado criou um protagonista improvável no qual somos capazes de acreditar. E fez da sua história – escrita num tom justo, sempre adequado à natureza do que descreve – uma espécie de hino à esperança, uma demonstração de que nós, os seres humanos, embora imperfeitos e falíveis, talvez não sejamos, afinal, um caso perdido. Numa narrativa em que os bons sentimentos prevalecem, e em que o Índice Médio de Felicidade das personagens oscila, mas com tendência a subir à medida que fazem o que deve ser feito, o risco de dulcificação da prosa era enorme. Quando Daniel sobe para uma carrinha de nove lugares, com os filhos, Vasco, Xavier e um motorista patusco, dispostos os seis a percorrer 2500 quilómetros para cumprir a vontade de uma senhora paraplégica de Genebra, que pediu, no site, para ver uma última vez o irmão moribundo num hospital de Marselha, teme-se o pior: um retrato lúcido do nosso tempo dissolvido por um final lamechas. Temor infundado. A viagem é redentora, sim, mas por razões oblíquas. E raras vezes um final feliz fez tanto sentido como este faz.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges