Esculpir beleza na linguagem

Ponto Último e Outros Poemas
Autor: John Updike
Título original: Endpoint and Other Poems
Tradutora: Ana Luísa Amaral
Editora: Civilização
N.º de páginas: 105
ISBN: 978-972-26-2945-4
Ano de publicação: 2009
Embora tenha atingido a glória literária enquanto ficcionista, John Updike (1932-2009) foi também um notável ensaísta e um bom poeta. Não por acaso, são de poesia tanto a sua obra de estreia (The Carpentered Hen, 1958) como o opus final: este póstumo Ponto Último e outros poemas.
Na principal sequência, que dá título ao livro, Updike empreende uma espantosa reflexão sobre o tempo e o envelhecimento, balizada pelos aniversários da «década em que a maior parte das pessoas morre» (isto é, para lá dos 70 anos) e pelas visitas ao hospital, poucas semanas antes da morte, com um cancro que minou os seus pulmões, «fantasmas patéticos e oblongos». À beira do fim, o escritor olha para trás sem azedume ou excessiva tristeza, recuperando memórias de infância, paisagens, a história do seu percurso literário e uma ironia que redime as agruras da decadência física. Ele é o velho senhor que sugou a vida até ao tutano, capaz por isso de enfrentar as traições da velhice – já não perceber como se abre a tampa da gasolina; o corpo devassado pelos médicos – com mais resignação do que melancolia.
Nos «outros poemas», Updike regressa ao domínio do light verse (poesia ligeira), que lhe permite abordar os mais variados tópicos: do golfe a Doris Day, do basebol a Monica Lewinsky, passando pela morte de um computador, pela pintura de Lucian Freud, pelas fitas de cassete (que se enovelam, como «ténias magnéticas / cor de um negro metálico», na berma das estradas) e por alguns exercícios de estilo menores, quando não dispensáveis.
Nestes retratos de uma realidade tipicamente americana, mesmo quando o tom se afigura humorístico ou sarcástico, há sempre uma densidade secreta, uma gravitas, uma noção de que o poeta, o escritor, deve «esculpir / beleza na linguagem», uma «beleza que se eleva / da carne e encontra o seu lugar na letra impressa». Foi a partir da própria matéria da literatura, no fundo, que Updike construiu a sua existência e é dessa matéria que mais lhe custa separar-se:
Ficai comigo, palavras, mais um pouco; destes-me
o meu direito de renúncia junto ao sol, aplacastes
as feridas da minha juventude, troçastes
dos meus cuidados de adulto, tornastes em meu favor
o que nas mais das vidas seria pura falha,
e formastes mais sólidos fantasmas desses que amei.
Editora dos romances de Updike, a Civilização foi rápida a oferecer aos seus leitores este livro belo e terminal, em capa dura e bem traduzido por uma poeta especialista em literatura norte-americana. Lamenta-se apenas que a edição não seja bilingue, para termos igualmente acesso à musicalidade e aos requintes estilísticos dos poemas originais.
Avaliação: 8/10
[Versão ligeiramente aumentada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
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