Esquinas e quedas

Prémio Nacional de Poesia
Autor: Nuno Moura
Editora: Mia Soave
N.º de páginas: 44
ISBN: 978-989-97215-1-7
Ano de publicação: 2012

Nuno Moura é um dos elementos mais desalinhadamente activos da poesia portuguesa contemporânea. Ex-jogador de pólo aquático, ex-publicitário, tem sido um declamador todo-o-terreno de versos seus e de outros – a solo, em dupla (COPO, com Paulo Condessa) ou em grupo (Ventilan) –, além de responsável por projectos editoriais arriscados, sempre à margem dos circuitos estabelecidos. Depois da Mariposa Azual, fundou recentemente a Mia Soave – assumidamente uma «editora de vão de escada», que se estreou a publicar um livro de poemas de Alberto Pimenta (Reality Show ou a alegoria das cavernas, acompanhado por um CD com temas originais de Ana Deus e Alexandre Soares).
Agora, em Prémio Nacional de Poesia, igualmente com um disco de bónus (14 temas musicados por José Ferreira, a partir de textos antigos de Nuno Moura, ditos pelo próprio ou cantados por Beatriz Nunes, a nova voz do Madredeus), volta a prevalecer a dimensão oral desta escrita: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo.» Performativa e surrealizante, a prosa poética de Nuno Moura é um mecanismo imparável de sabotagem e rebeldia, um exercício de liberdade livre em doses generosas.
«Entre o pensamento e a fala, dentro do dicionário completo de sons, dois amantes abraçam-se.» O resto é caos, espalhafato, provocação (farpas a rodos; tiro ao alvo a tudo o que mexe, de musas a críticos), uma energia que muitas vezes acende a página, mas outras vezes se dissipa, palavrosa, no abismo da escrita automática. É um poema «de esquinas e de quedas», sempre a fugir, desobediente, «rasando o canteiro cheio de terra e de folhas». Com ele, diz o poeta, «as miúdas vão voltar a gritar nos recitais». Esperemos que sim.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges