Estação Portugal

O comboio das cinco
Autor: Luís Afonso
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 83
ISBN: 978-989-98019-0-5
Ano de publicação: 2012

Radicado em Serpa há 24 anos, Luís Afonso é um dos cartoonistas mais regulares da imprensa escrita portuguesa, com trabalhos publicados no Público (o célebre Bartoon), no desportivo A Bola, no Jornal de Negócios e na revista Sábado. Para autor do seu primeiro livro de ficção inédita e não desenhada (ou, pelo menos, não exclusivamente desenhada), escolheu uma das suas personagens mais carismáticas: Lopes, o escritor pós-moderno. Fazendo jus ao estatuto, o dito Lopes dá a ler, a um cineasta, seis cenas por si escritas. Argumentação: «Um realizador enfrenta sempre problemas quando tem de adaptar um livro ao cinema. Mas se conhecer o livro antes de ele estar concluído, pode ajudar a escrevê-lo de forma a ser mais facilmente adaptado.» Simples. Ou nem por isso.
Entre cada cena, Lopes discute com o realizador o rumo a dar à história (melhor, às histórias), a caracterização dos protagonistas e opções estéticas (onde usar preto-e-branco ou tons de sépia). Há também artifícios intelectualóides, como o assinalar de «indicadores de qualidade literária» dentro do texto, mas a estrutura pós-moderna – usada por Luís Afonso em modo paródico – é o que o livro tem de menos interessante. A graça está toda na prosa dúctil (a lembrar por vezes Mário de Carvalho) e na ironia com que são desenhadas personagens caricatas, vivendo situações de um absurdo delirante. O capítulo esquizofrénico sobre um presidente da Junta em guerra com o presidente do clube da terrinha, que é ele próprio, merece entrada directa para as antologias de humor. Depois há ainda essa bizarra estação de comboios onde os comboios nunca chegam, onde tudo é a fingir. E o nome da estação podia ser Portugal.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Estação Portugal”

  1. Olinda P. Gil on Dezembro 5th, 2012 10:03

    Foste um poquinho duro mas depois deste 7/10 😉
    Já tinha lido a crítica no jornal, vou colocar uma indicação no meu blog (assim que der para isso).
    Tenho curiosidade com este livro.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges