Estadia americana

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O Estado de Nova Iorque
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 137
ISBN: 978-989-616-539-0
Ano de publicação: 2013

«Toda a gente tem alguma ideia sobre a América, mas ninguém sabe o que vai encontrar», lembra Tiago Patrício neste livro de impressões breves e aforismos, escrito durante uma residência na Ledig House, ao abrigo de uma bolsa de criação literária. Patrício começa o relato fragmentário num tom quase documental, descrevendo a partida com uma mala cheia de livros, as incidências da viagem aérea, as barreiras de comunicação entre passageiros, e a chegada aos EUA, com os choques culturais mais óbvios, da alimentação ao custo das coisas.
Em linguagem económica, a primeira parte oferece-nos o que se espera de um diário de viagem: retratos de americanos típicos, o espanto com a verticalidade de Nova Iorque, muitos ecos do 11 de Setembro, reflexões irónicas sobre Wall Street e a crise financeira. «Aqui, tudo é robusto e musculado: os camiões, os comboios, as fábricas, as máquinas de lavar e secar, as leis, as palavras, as frases.»
As partes seguintes evoluem para outros «estados» de escrita, menos objectivos. Quando se descreve a vida dos escritores em retiro criativo, numa redoma com refeições a horas certas e piscina, há uma tensão ficcional que se instala, com pequenos medos inventados por quem só quer «apanhar sustos em segurança». Depois, assim que o primeiro estranhamento se dissolve, é a própria realidade a dar asas a este livro difuso. Numa igreja, uma rapariga em cadeira de rodas tenta levantar-se: «Quando cai desamparada, mais à frente, levanta-se a suspeita de haver alguém com falta de fé na sala.» À noite, nos lugares por onde andou Melville, «consegue-se ver um olho muito amarelo de baleia no horizonte, que se torna mais plácido à medida que sobe no céu».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges