Estados de suspensão

O anjo Esmeralda – Nove histórias
Autor: Don DeLillo
Título original: The Angel Esmeralda – Nine Stories
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-0-07172-9
Ano de publicação: 2012

Não deixa de ser sintomático que Don DeLillo só tenha publicado em 2011 a sua primeira recolha de contos, rigorosamente quatro décadas depois do seu primeiro romance (Americana, de 1971). Embora tenha escrito ao longo dos anos cerca de uma vintena de short stories (em revistas como a New Yorker, Granta ou Esquire), DeLillo não consegue despir o fato de romancista. Mesmo quando parte de observações microscópicas da realidade quotidiana, ou dos dilemas existenciais das personagens, a sua escrita tende para uma abrangência e desmesura que dificilmente encaixam nos limites da narrativa curta.
Um bom exemplo é o conto que dá título a este volume, no qual acompanhamos duas freiras que lidam diariamente com as misérias e despojos humanos de uma das zonas mais degradadas do Bronx, onde bandos de marginais pintam anjos nas paredes, simbolizando as crianças que morrem no bairro. Quando Esmeralda, uma rapariguinha arredia e quase selvagem, é violada e atirada de um telhado, não só surge o respectivo graffiti no sórdido mural como se inicia um culto espontâneo, e pagão, de pessoas que julgam ver o rosto da menina num painel publicitário, quando nele incidem as luzes dos comboios que passam. É uma história brutal, em que DeLillo não julga ninguém nem moraliza, antes mostra um cenário urbano apocalíptico, o lado negro da grandeza americana. Mas não poderia este fragmento fazer parte de um panorama maior? Claro que sim. Aliás, faz mesmo. Publicado inicialmente em 1994, O anjo Esmeralda veio a ser incorporado em Submundo (1997), romance gigantesco em que o tal panorama nos surge em todo o seu esplendor.
À excepção de Meia-noite em Dostoievski, um conto perfeito que só podia ser conto (é espantosa a sua acuidade descritiva, o modo como articula os vários ritmos da narração, a mestria dos diálogos e a força do desenlace), estas histórias aspiram a ser capítulos de histórias maiores. Uma constatação que em nada as diminui ou enfraquece, mas deixa no leitor a suspeita de que haveria talvez um antes e um depois, uma qualquer continuação necessária que o autor, por preguiça ou bravata, nos sonegou. Ao contrário de Tchekov ou Alice Munro, DeLillo não é um contista por natureza. A forma do conto fica-lhe como que apertada, há nos materiais que trabalha um desejo de expansão que acaba quase sempre por ser reprimido. O resultado é paradoxal: chegamos ao fim simultaneamente saciados e com fome para mais.
No primeiro conto, Criação, um casal tem dificuldade em abandonar uma ilha das Caraíbas. O caos no aeroporto leva a um kafkiano esquema de listas de espera e desmarcações sucessivas. Quando a mulher consegue finalmente embarcar, o marido fica para trás e aproveita os atrasos para se envolver com outra passageira, também em trânsito. O que os une é um estado de suspensão, uma bolha de incerteza no curso normal do tempo, ao qual se abandonam com mais desespero e melancolia do que exaltação amorosa. Esse estado de suspensão, sempre à beira de uma epifania que se escapa por entre os dedos, é comum a personagens de outros contos. Em Momentos calorosos na Terceira Guerra Mundial, dois soldados em órbita deixam-se comover pela beleza do planeta Terra, enquanto afinam as armas laser que podem destruir milhares de vidas num segundo. Em dois dos contos (Baader-Meinhof e A Faminta), a relação entre homem e mulher parte da experiência estética (observação de quadros numa galeria de arte e cinefilia compulsiva, respectivamente) para desaguar num frustrante e frustrado crescendo de tensão erótica.
Ainda outro tipo de suspensão é a que se vive num estabelecimento prisional para criminosos de colarinho branco (Foice e Martelo, publicado em 2010). Ali se juntam os autores morais da tragédia financeira e económica em curso. Um espectáculo a que os responsáveis assistem pela TV, como se estivessem fora da História. Que a verdade seja dita no ecrã por crianças, anunciando alegremente o colapso das ilusões capitalistas, é DeLillo puro. Ficamos à espera do romance em que esta história, mais tarde ou mais cedo, se haverá de incorporar.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges