Estalidos e chuva estática

O Fiasco do Milénio e outras tragédias menores
Autor: Rui Tavares
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-8955-96-0
Ano de publicação: 2009
Revelado pela blogosfera, nos tempos áureos do Barnabé (2003-2005), o historiador Rui Tavares impôs-se, desde então, como um dos intelectuais portugueses mais interessantes e produtivos. Além de livros sobre temas da sua área (terramoto de 1755, regicídio), publicou um volume de textos de opinião e uma peça de teatro (O Arquitecto), traduziu clássicos (Voltaire, Giordano Bruno), aparece regularmente a discutir política na televisão e vem escrevendo sobre temas de actualidade, duas vezes por semana, no jornal Público. Desde Julho de 2006, é também cronista na Blitz. São justamente os textos mensais escritos para esta revista, com uma liberdade total («mais liberdade do que alguma vez tive na imprensa»), que se reúnem em O Fiasco do Milénio.
Sem qualquer tipo de constrangimento temático, Tavares demonstra aqui o vasto espectro dos seus interesses. Se uma crónica faz a exegese de uma canção de Adoniran Barbosa, outras abordam a impossibilidade da Bélgica, a «filosofia portátil» do cavaquinho, os problemas associados ao progresso tecnológico ou o futuro do jornalismo. Surgem ainda questões linguísticas, pequenos ensaios literários (sobre Kurt Vonnegut, Eça de Queirós, António José da Silva) e reflexões intemporais sobre a infância, a vida nas cidades ou o próprio acto de escrever. Não por acaso, os textos menos interessantes são os que nascem da tal actualidade de que o autor queria fugir (referendo para a despenalização do aborto, eleições presidenciais nos EUA).
Para lá da inteligência das análises e da solidez da argumentação – Tavares é um pensador que gosta de mostrar as linhas com que se cose o pensamento, articulando com mestria cada sucessão de ideias ou raciocínios –, o que torna memoráveis estas prosas é a linguagem: buriladíssima, complexa, poética, exacta. Eis um exemplo, de muitos possíveis: «Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir numa bolha grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas.»
Avaliação: 7/10
[Texto publicado no n.º 81 da revista Ler]
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Caro Xará
É assim que aquii no Brasil chamamos as pessoas que têm o mesmo nome. Também me chamo José Mário Silva e estou estudando Jornalismo, no segundo ano. Admiro a profissão e é por isso que decidi estudar sua técnica, mesmo tendo nascido em 20 de dezembro de 1958. Fico contente de ter um xará na Europa que, como eu, nutre apego à nobre missão.
Moro em Caraguatatuba, cidade do Litoral Norte do Estado de São Paulo, Brasil.
Um abraço.
José Mário Silva
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