Eu & Bobby Fischer

No final dos anos 80, a minha grande paixão era o xadrez. Todos os sábados, apanhava um autocarro da Rodoviária Nacional com destino ao subúrbios de Almada (isto é, a periferia da periferia), onde participava em campeonatos fracos, mas disputadíssimos, no humilde Clube Recreativo do Feijó. Não se pode dizer que as condições para a prática da modalidade fossem as melhores: lembro-me de um “torneio interno” ter coincidido com um campeonato de tiro, em salas contíguas. Ao regressarem aos tabuleiros, vindos da casa de banho, os xadrezistas tinham de esperar que os atiradores baixassem as armas. E o som dos disparos minava, tarde adentro, a capacidade de concentração de quem temia perder-se nos labirintos teóricos da Defesa Siciliana.
Nessa época, o meu herói era Garry Kasparov, cujas partidas acompanhava nas páginas inteiras que o vespertino A Capital dedicava todas as semanas ao xadrez, cheias de diagramas e análises do mestre Luís Santos (hoje recordo esse espaço de inteligência como um oásis efémero, rapidamente devorado pelo deserto da vulgaridade jornalística). Muitos anos mais tarde, pude jogar contra o mítico “ogre de Baku” numa simultânea no Estoril e o meu único prazer consistiu em adiar o golpe de misericórdia, a estocada final do antigo campeão, já na reforma mas ainda ferozmente competitivo. Antes de Kasparov, admirei Anatoly Karpov, cerebral campeão-tipo da escola soviética (li de fio a pavio o livro de capa verde, editado pela Caminho, com as “32 lições de xadrez” do match Karpov-Korchnoi pelo título mundial de 1978); e antes dele rendi-me a Alexandre Alekhine (russo branco que morreu em Portugal, engasgado com um pedaço de carne), capaz dos mais estrepitosos sacrifícios de peças, mesmo em jogos às cegas; e, antes ainda de Alekhine, houve o cubano elegantíssimo, José Raúl Capablanca, autor daquele que foi o meu primeiro livro de xadrez.
Deste panteão, curiosamente, nunca constou Bobby Fischer, talvez porque o único campeão mundial norte-americano acabou por sair de cena assim que venceu Spassky em Reiquejavique, poucos meses depois do meu nascimento, em 1972. Quando comecei a jogar mais a sério, Fischer era um fantasma, uma assombração, um paranóico incapaz de se encaixar no mundo. Reconhecia-lhe o talento puro e deleitava-me com as suas melhores partidas, mas não era capaz de o venerar. Depois veio o 11 de Setembro e as célebres afirmações de regozijo com os ataques aos EUA – a alegria de um sociopata ressentido com a pátria que renegou. Risquei-o de vez do meu mapa mental, até saber da sua morte na Islândia, em 2008, no fim de um longo processo de decadência e fuga que o levou até ao lugar onde conheceu a glória desportiva, esse zénite estupidamente desperdiçado.

Embora não seja grande leitor de biografias, algo me atraiu para o livro Endgame, de Frank Brady (Crown, 402 páginas, 2011). Talvez o quilométrico subtítulo: Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness. Quem não gosta de histórias de ascensão e queda? Quem resiste a figuras que estão no fio da navalha, entre génio e loucura? Em muitos aspectos, Bobby Fischer é como uma personagem de romance: grandiosa, iníqua, trágica. E a trajectória da sua vida – minuciosamente recuperada por Brady (um árbitro internacional de xadrez que conheceu de perto o objecto da sua biografia e teve acesso a vasta documentação) – mostra-nos como o rapazinho brilhante de Brooklyn, que respirou xadrez da infância à idade adulta, obcecado em tornar-se um dos melhores jogadores de sempre, descarrilou assim que cumpriu o seu desígnio, deixando-se levar por megalomanias insensatas, pela torpeza das teorias da conspiração e por um ódio anti-semita que o tornou, para sempre, odioso. O xadrez era a sua vida e ele desperdiçou ambos: o xadrez (que na prática abandonou antes de fazer 30 anos) e a vida. É uma história triste, tristíssima, mas atravessada por fugazes momentos de luz intensa. Como aquela partida maravilhosa que jogou aos 13 anos contra Donald Byrne (chamaram-lhe o “Jogo do Século”) e que está entre as coisas mais belas que alguma vez contemplei.

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]



Comentários

3 Responses to “Eu & Bobby Fischer”

  1. Laura on Outubro 29th, 2011 19:46

    Confesso que adorava saber jogar xadrez decentemente, mas só consegui perceber o objectivo do jogo jogando-o no windows e o máximo que consegui foram 3 empates. O mais grave é que nem percebo bem como. Enfim…

  2. João Delicado on Novembro 3rd, 2011 21:45

    A referência ao Clube Recreativo do Feijó – o saudoso! – provocou-me uma memória longínqua de uma prova que lá fiz… de tiro! :))) Por acaso, uma das piores da minha incursão pelo Pentatlo Moderno já que consegui acertar em todos os círculos de pontuação do alvo, do zero ao dez!
    Agora percebo: talvez estivesse distraído com o ruído dos xadrezistas! :)))

  3. Luís Graça on Novembro 4th, 2011 5:55

    O embate de 1972 segui na RTP, via comentários do João Cordovil.
    Tinha dez anos e essa disputa motivou-me imenso para o xadrez.
    Em 1975, de férias no Bom Jesus, com uma gripalhada valente, recebi a visita de um médico, no hotel.
    Levei com um valente “xeque pastor” e fiquei a olhar para o tabuleiro da Majora, já o médico devia estar em Braga.
    Como repórter de O JOGO acompanhei as vindas a Lisboa do Kasparov, do Karpov e do Anand. Foi muito interessante.

    Já agora, lembro que o fabuloso “Auto de Fé” tem personagem verdadeiramente obcecada com o Capablanca.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges