Fantástico quotidiano

Os Objectos Chamam-nos
Autor: Juan José Millás
Título original: Los objetos nos llaman
Tradução: Luísa Diogo e Carlos Torres
Editora: Planeta
N.º de páginas: 235
ISBN: 978-989-657-056-9
Ano de publicação: 2010

Nestas 75 brevíssimas narrativas de Juan José Millás, encontra-se de tudo: memórias de infância, terríveis equívocos, improváveis metamorfoses, identidades usurpadas, manequins de montra que transpiram, pessoas invisíveis, personagens trágicas que vivem um dia (ou dois) adiantadas em relação aos restantes mortais, almas sem corpo, corpos sem alma, negócios com o diabo, encarnações irónicas de Deus, chamadas do Além, amigos imaginários, taxistas peculiares, mulheres obcecadas por homens liliputianos, mortos que ignoram o seu estado e circulam entre os vivos, relações familiares problemáticas (mães sufocantes ou cruéis, mas também pais arredios), uma visita completa a Madrid seguindo um guia turístico de Buenos Aires e sonhos, muitos sonhos bizarros, pesadelos capazes de baralhar o mais sofisticado dos psicanalistas.
Com a sua escrita elegante, burilada e concisa, em que reconhecemos tanto a «textura onírica» como algumas obsessões do livro anterior (O Mundo, belíssimo romance de matriz autobiográfica), Millás surge aqui como um cronista da estranheza, dos paradoxos lógicos e morais, dos minúsculos desvios à ordem natural das coisas que engendram o absurdo.
A sua matéria-prima é a vida quotidiana, banal e prosaica, mas uma vida quotidiana em que se abrem, de repente e sem aviso, portas secretas que dão acesso ao mistério do que não existe mas podia existir (ou do que não aconteceu mas podia ter acontecido), ao «avesso da realidade», elaborando uma espécie de metafísica que a acidez do humor quase sempre dissolve, tornando-a patética – excepto nos casos em que se ensaia uma aproximação ao sublime, como no pungente conto intitulado O cheiro da gasolina.
Millás é essencialmente um escritor muito atento à claustrofobia do nosso tempo e alguém que descobre em tudo o que observa, do café de bairro à grande cidade, o potencial de uma história para contar. Desígnio resumido de forma perfeita nesta frase de um dos seus atormentados narradores: «Entre a literatura e a vida, escolhi sempre a literatura.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges