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Fazer mais com menos

Deslizamento
Autor: Jorge Listopad
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-989-628-124-3
Ano de publicação: 2009

Durante décadas de jornalismo e observação diária deste país que o acolheu, tornando-o o mais português dos escritores checos (ou o mais checo dos escritores portugueses), Jorge Listopad foi afinando como poucos um talento raro: a capacidade de síntese. É ver as suas crónicas fragmentadas e os ditos lapidares do coelhinho no Jornal de Letras. Meia dúzia de frases curtas, sintaxe elástica, o Rossio na Rua da Betesga. Ou seja, o máximo efeito literário com o mínimo de recursos verbais.
A arte da miniatura é também a chave deste novo «último livro», em que Listopad procura um «sistema» para a sua escrita; sabendo de antemão que mais facilmente encontrará – e encontra – os instrumentos para o sabotar. O imperativo é escrever, escrever sempre, escrever com a consciência de que é a escrita que se escreve a si mesma. O narrador nem sequer disfarça a sua impotência, a sua transitoriedade; antes abre o jogo e mostra as costuras todas do texto, os bastidores do ofício. As regras voam pela janela. Não há princípio, meio e fim. Há alguns princípios, muitos meios e poucos fins. O que predomina é a incompletude: pequenas ficções que surgem do nada e no nada se dissolvem; prosas deixadas em «estado de esboço»; histórias que começam mas nem sempre acabam.
Listopad trabalha por associações de ideias e de lugares. O presente é sistematicamente invadido pelo passado. Uma cena na Lisboa de hoje corre o risco de ser sacudida por uma memória da infância checa, tão forte que até acende frases na língua materna. O segredo está na ampliação cuidadosa dos pormenores, porque «uma palavra pode desencadear o mundo soterrado». Não é preciso muito para que um microcosmos ganhe forma e se intrometa.
Uns atrás dos outros, deslizam à nossa frente contos morais sem moral nenhuma, figuras picarescas em circos de província, personagens que se preparam no «vestíbulo da ficção», comboios rigorosamente vigiados (ou cheios de soldadesca à espera não se sabe de que guerra), tragédias mínimas, variações sobre Tchékhov e Shakespeare, amores secretos, casas, desdobramentos, um «herbário do quotidiano».
É uma arte da miniatura, já o dissemos. Mas também arte da elipse, da suspensão, dos suaves enganos. Tudo feito com elegância, aprumo, vontade de descobrir atalhos. «Eu era velho e inventava coisas novas», diz Listopad, cheio de razão, com a certeza de quem também afirma: «São as paisagens que variam e se repetem, projectando-se nos ecrãs dos sonhos sonhados, na textura dos textos, nos quadros ainda não pintados. Não perguntem porque é assim. É assim.» E é mesmo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 80 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Fazer mais com menos”

  1. MWilliam on Julho 3rd, 2009 12:19

    Se tivesse de falar sobre este livro de Jorge Listopad precisaria de utilizar, logo de imediato, 159 páginas. Depois, teria de duplicar essas 159 páginas – caso utilizasse apenas uma linha para cada linha de texto. 159 páginas duplicadas limitar-me-iam. Quantas centenas de páginas precisaria para falar só deste livro de Jorge Listopad? Quantas centenas para os restantes? E quantas centenas sobre Jorge Listopad? O que escreve Jorge Listopad? Um mundo interior tão grande, tão dor, tão íntimo, tão secreto, tão mistério, tão sarcástico, tão irónico, tão belo, tão único, tão divertido, tão artístico, tão mágico, tão real, tão cru, tão inquieto, tão alquímico, tão fundo, tão razão, tão sabedoria, tão coração, tão físico, tão sangue, tão matéria, tão loucura, tão memória, tão ideias, tão lugares. O seu poder de síntese, tudo menos síntese , a sua grande literatura, tudo menos regras, a literatura não são regras. Jorge Listopad não precisa de regras, precisa de regras quem anda a aprender literatura. Jorge Listopad é literatura. Quantos pecados mortais para si, Jorge Listopad? Quantos rios para si, Jorge Listopad? Quantas janelas para si, Jorge Listopad? Quantas «lendas vivas e sós»? Quanta relvas e o que acontece aí , Jorge Listopad « entre águas estagnadas, debaixo da cabeça meteu o casaco de cabedal velho como o mundo(…)? Quantos mundos nas palavras que não serão escritas, nos quadros que nunca ….? mas que fluem nas energias, nos silêncios e nos sinais? Quantos números, Jorge Listopad? Só alguns. Em primeiro lugar sempre a estrela que nada tem a ver com números, ou se calhar tem. Depois mais algumas coisas que não nomeio: im… s….E o mundo tantas vezes, perigoso, sim, às vezes. As rodas que nos marcam a infância e a vida, tantas vezes, perigosa, sim, às vezes. E Kafka. E o teatro. E as nuvens. E a ilusão. E a lucidez. « O hábito é uma camisa de ferro, uma camisola que nos aperta o pescoço». E essa maravilha na Casa dançante da ilusão e da lucidez « Quisemos ir, enquanto estávamos vivos, ao centro». E todas as maravilhas a fluírem no livro . « A Olga foi isso: um corpo que envelhecia mas com uma alma que era um pássaro azul poético. Não sabia despir-se diante de mim, mas dizia que os jardineiros da Gulbenkian penteavam o jardim».
    O que é Jorge Listopad? Ou o que não é e que se supõe ser e nunca será ou se saberá? «Existem muitas versões, ou melhor, interpretações da minha vida». Por onde anda a literatura, isto é , por onde anda Jorge Listopad? No mundo, no coração da Europa, na perifieria, no coração do corpo , encontro-o na rua de São José, aquela onde é frequente encontrar o seu avô: « Mas é raro ser o meu avô inteiro». A rua do seu texto, a beleza, a saudade… Coincidências da rua de São José. No mundo encontro-o no Recomeço. «Estou a repetir-me. Conheço o lugar(…)».
    No mundo encontro-o em numa diversidade de mundos que enchem as páginas deste livro. No mundo encontro-o nas coincidências ainda de cansaço ou coincidências da imaginação do cansaço das coisas .« As coisas cansam-se antes de mim, compreende? Quando regressam a mim, estão reduzidas, insignificantes (…).
    Mas, Respiração da casa « para não esquecer: o importante é a luz. Surpreende. Transforma. Ao transformar, surpreende de novo. E se nessa matéria luminotécnica ocorrer algum erro, será corrigido para o ano, eventualmente deitar-se- á fora o que apodreceu, o que se secou. Os rios secos não têm nome».
    Mas, Literatura « a literatura não nos aterroriza. Por outras palavras, damo-nos bem com todos os monstros(…)». Mas tudo, tudo mesmo, corpos com vida e com morte. Jorge Listopad está cheio de corpos e de estrelas. 5 estrelas para o avaliar seria nada. Nota 10, de 1 a 10, seria nada. Jorge Listopad ultrapassa qualquer avaliação. Apetece-me reler outra vez Escrevo com o dedo no pólen dos jardins « os jardins cheiravam bem, Jaroslav Seifert escrevia sonetos para as almas gentis, e os donos daquele pequeno jardim da periferia lavavam as calças velhas e queriam já cheirar a terra (…) e apetece-me continuar a ler : Viver é perigoso (…) e continuar assim infinitamente sem nunca terminar como tudo em Jorge Listopad ou que se supõe sobre a vida « terminou a Guerra, pombinhos meus, e ao dizer isto encostou-se ao pequeno muro, como se estivesse a reflectir sobre o seu próprio destino (…) e continuar, continuar …« hoje sei o que ela sonhou: e o que acabei de contar é simplesmente uma homenagem à memória que controla a imaterialidade do tempo», e continuar « Ora, a Terra. Talvez morta (…) ……………………………ora « Imóvel, fecho-me e abro-me de par em par, sou uma imensa porta escancarada para o pântano da origem». Ora, tudo o que não se pode mais escrever. « O que nós, os inibidos, somos. Ferramentas não faltam»………………………………….

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