Fenómeno Grey

As Cinquenta Sombras de Grey
Autora: E. L. James
Título original: Fifty Shades of Grey
Tradução: Ana Álvares e Leonor Marques
Editora: Lua de Papel
N.º de páginas:
547
ISBN: 978-989-23-1995-7
Ano de publicação: 2012

Posto à venda em Portugal no dia 9 deste mês, As Cinquentas Sombras de Grey, de E. L. James, o romance erótico que é já considerado o grande fenómeno editorial de 2012, esgotou a primeira edição (15 mil exemplares) em apenas cinco dias, entrando directamente para o primeiro lugar do top em quase todos os principais pontos de venda: FNAC, Sonae, Corte Inglés (e para o segundo lugar na rede de livrarias Bertrand). Um sucesso comercial que replica, sem surpresa, o que tem acontecido por todo o mundo. Lançada em Abril deste ano, a trilogia vendeu 20 milhões de exemplares nos EUA em apenas quatro meses e um total de 31 milhões só nos países anglófonos. Traduzida em 40 países, lidera os tops em muitos deles (Alemanha, Espanha, Holanda, Itália, Reino Unido, etc.). É um êxito à escala global, muito na linha do que aconteceu há uns anos com o feiticeiro Harry Potter, de J. K. Rowling, e com os vampiros assexuados de Stephenie Meyer. Desta vez, porém, o público-alvo não é composto por adolescentes ávidos de mundos fantásticos ou romantismo kitsch, mas por mulheres adultas, de todas as idades, atraídas pelas tórridas cenas de sexo. Houve quem lhe chamasse «pornografia para mamãs», sobretudo nos EUA, mas o epíteto peca por exagero. E. L. James limitou-se a materializar, tudo indica na medida certa, as fantasias de um número significativo de pessoas que estão habituadas às elipses do costume (a porta que se fecha, a luz que se apaga) e nunca devem ter lido na vida um livro de Henry Miller ou Anaïs Nin.
O mais espantoso neste fenómeno editorial é o modo como surgiu do nada. E. L. James, pseudónimo de Erika Leonard, uma produtora televisiva britânica de 49 anos, começou a escrever num site de fanfiction, género literário que consiste em copiar o estilo, o universo e as personagens de um determinado autor. No caso de James, a escritora imitada era Stephenie Meyer, a criadora da saga Twilight. E se a fonte de inspiração já não augurava nada de bom, o nom de plume trazia, em si mesmo, uma antecipação do desastre: Snowqueens Icedragon (mais na linha do que se esperaria, por exemplo, de um imitador de George R. R. Martin). Ao contrário de Meyer, James introduzia muito sexo nas suas histórias, o que suscitou críticas e a levou a transferir o material para outro site. No processo de reescrita, deixados para trás os nomes originais das personagens, apareceram Anastasia Steele (ex-Isabella Swan) e Christian Grey (reconversão do vampiro Edward Cullen em milionário controlador), figuras centrais do que viria a ser As Cinquenta Sombras de Grey. Estávamos em Maio de 2011 e o primeiro volume da trilogia foi posto à venda em versão e-book por uma modesta editora virtual, sediada na Austrália. A história podia acabar aqui, como acabam 99,99% dos livros escritos por pessoas com o perfil e o talento literário quase nulo de E. L. James. Acontece que o passa-palavra funcionou um pouco por todo o lado, com reflexo directo nas vendas, e foram surgindo cada vez mais referências, na Internet, ao livro que andava a deixar literalmente excitadas muitas leitoras. Quando o terceiro volume da trilogia foi lançado, em Janeiro deste ano, várias reportagens nos principais meios da comunicação social norte-americana destacaram o marketing viral espontâneo associado à série e o facto de muitas mulheres andarem nos transportes públicos a ler «o romance escaldante de que se fala», tranquilas porque os seus leitores de e-books as deixavam a salvo do escrutínio indiscreto que os outros passageiros fazem, quando podem olhar para a lombada. O resto – edições em papel, traduções para o mundo inteiro, venda dos direitos cinematográficos – aconteceu à velocidade da luz, deixando a autora num estado de compreensível incredulidade.
«Não consigo perceber como é que se tornou tão popular», disse E. L. James em entrevista ao Expresso (revista Única, 30 de Junho), referindo-se à sua obra. Trata-se de uma frase honesta, honra lhe seja feita. Porque nós também não conseguimos perceber como é que se tornou tão popular. Histórias destas – fáceis de ler e de esquecer; cheias de lugares-comuns e banalidades; mal escritas de uma ponta à outra – existem aos milhares. O que há de diferente em As Cinquenta Sombras de Grey é apenas a natureza das cenas de sexo, mais numerosas e descritas de forma mais explícita do que será habitual nas edições mainstream. Mas se a isto, mais às incursões pífias no domínio do sadomasoquismo, se resume o alvoroço provocado por estes livros, então é caso para concluir que não só o sexo continua a vender (como sempre vendeu) mas encontrou novos nichos de consumo, infelizmente menos abertos à experimentação erótica e libertos de condicionantes morais do que se poderia pensar. Na sua essência, a abordagem de E. L. James é profundamente conservadora. O tema central do livro não é o carácter negro de Christian Grey, personagem que noutras mãos poderia revelar alguma profundidade, mas o esforço hercúleo de Anastasia, a heroína inocente, para o resgatar aos seus demónios, à «sua própria escuridão», e «trazê-lo para a luz». Não se escapa aqui a um único dos estereótipos femininos: do fascínio pelo príncipe encantado ao impulso salvífico. E a suposta perversão de Grey – materializada em práticas sadomasoquistas que só podiam ser consequência, claro está, de traumas infantis profundos – também é um logro. Cedo compreendemos que o «dominador» vai sendo gradualmente dominado por quem era suposto dominar, incapaz de lhe fazer, chegada a hora decisiva, o que fez às quinze «submissas» precedentes. Por «amor», Anastasia sujeita-se a ser algemada, a levar açoites e a sentir no corpo o peso de uma chibata. Mas o «castigo» é sempre relativamente soft: sem sangue, sem dor extrema. Quando Anastasia desafia Grey a forçar os limites do contrato de submissão, várias vezes discutido (aliás, com excessiva minúcia) mas nunca assinado, tudo acaba.
Na prática, As Cinquenta Sombras de Grey não passa de um conto de fadas clássico, só que sem happy end (quase de certeza guardado para o final da série). Christian Grey é o príncipe encantado, misterioso e emocionalmente “volátil”, cuja obsessão pelo controlo trai a natureza sombria a que o título do romance alude. Aos 27 anos, é riquíssimo, poderoso, e uma idealização do homem de sucesso. Nas palavras da autora, muito dada às hipérboles, ele «não era só atraente – era o suprassumo da beleza masculina, deslumbrante». Os seus dotes são quase infinitos: toca ao piano peças melancólicas de Chopin e transcrições de Bach, colecciona arte contemporânea, sabe pilotar o seu helicóptero particular, voa em planadores e, mais importante do que tudo o resto, é um verdadeiro deus do sexo, sempre preocupado com a satisfação da sua companheira (nunca chega ao orgasmo antes dela) e aparentemente bafejado pela completa ausência de período refractário. Por seu lado, Anastasia, quando conhece Grey aos 21 anos, prestes a completar o ensino superior, é a própria imagem da inocência. Virgem, raras vezes foi beijada, nunca teve namorado, nunca se embebedou, nunca se masturbou. A partir da página 128, tudo isso muda drasticamente, mas o grau de inverosimilhança destas criaturas, e do que fazem e dizem, mantém-se até ao fim.
Na primeira visita a casa de Grey, Anastasia fica desde logo a conhecer a «sala de diversões» de Christian, com uma grelha de ferro suspensa do tecto, uma cruz presa à parede, cordas, correntes, algemas e um «sortido assombroso de palmatórias, chicotes, chibatas e instrumentos com penas de aspecto curioso». Aquele aparato todo parece destinado a infligir dor à pobre rapariga, mas na verdade ela só passa por ali duas vezes (e um pouco de fugida). Mais do que o antro de um torturador, a sala é uma metáfora do que E. L. James faz à literatura. Às mãos de Grey, Anastasia fica, no máximo, com o rabo vermelho e dorido. Às mãos de E. L. James, a literatura esvai-se em sangue até à morte.
Quase tudo na escrita desta autora é mau. O que não é mau, é péssimo. A «voz» de Anastasia, narradora na primeira pessoa, rapidamente se torna insuportável (sobretudo quando abusa de interjeições como «Uau!», «Bolas!» e «Oh não!»). Alvoroçada pela ideia que faz do amante, mesmo quando ele não está por perto, Anastasia sente o corpo como o palco de um «frenesim», de um «carnaval de emoções». Daí a repetição até à náusea dos sintomas clássicos do enlevo amoroso: joelhos a tremer, borboletas na barriga, pernas com «consistência de gelatina», o «sangue a zunir nas veias», o coração «a tentar fugir pela boca». A frequência cardíaca acelera sempre, a respiração suspende-se, há descargas eléctricas, há olhos revirados e lábios mordidos. Protagonista do livro não é Anastasia, é o seu corpo. É nele que se desenrolam os «avassaladores» orgasmos, que tanto alarido provocam nos grupos de discussão na Internet, é através dele que Anastasia diz o que as palavras não podem (ou não sabem). Corando, por exemplo. Nunca, na história da literatura universal, uma personagem terá corado tanto. E de tantas formas diferentes: «furiosamente», «ligeiramente», «violentamente». À sua melhor amiga, Anastasia diz a dada altura: «Oh, Kate, tu sabes que estou sempre a corar. É inevitável.» Deve ser mesmo: no total, acontece 152 vezes em 547 páginas. Uma vez a cada três páginas e meia.
No fundo, quem devia corar a sério não era Anastasia, era quem a criou. Como se o relato pormenorizado de todas as alterações fisiológicas da heroína não fosse suficientemente penoso, James ainda nos oferece o espectáculo grotesco da cabeça confusa de Anastasia, onde se digladiam o «subconsciente» (sempre céptico) e uma «deusa interior» (sempre eufórica), ambos antropomorfizados e dispostos a opinar sobre cada escolha ou dilema da rapariga. Pior mesmo só os arremedos poéticos de E. L. James, que redundam em imagens extraordinárias como estas: «a voz dele era quente e sedutora como brigadeiro de caramelo derretido»; «estava de tronco nu e eu bebi-o com os olhos, como se estivesse doida de sede e ele fosse água fresca de uma nascente da montanha»; «a expectativa borbulhava-me nas veias como um refrigerante». Ao pé disto, Margarida Rebelo Pinto soa a Virginia Woolf.
A Lua de Papel prevê editar o segundo volume da trilogia (As Cinquenta Sombras Mais Negras) em Outubro e o último (As Cinquenta Sombras Livre) em Fevereiro de 2013. Não exijam é a este crítico o sacrifício de os ler. Como diria Grey, com este primeiro já foram ultrapassados todos os limites toleráveis de sofrimento.

Avaliação: 0,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

9 Responses to “Fenómeno Grey”

  1. csd on Julho 26th, 2012 13:54

    :-DDD.

    Não vou gastar o meu rçament com isto. Tenho de comprar o “Adoecer” da Hélia e dois livros da Agustina.

  2. Adeselna Davies on Julho 26th, 2012 15:55

    Estou quase a confessar o meu amor por si! Fiquei incrédula quando a maior parte dos blogues diziam que gostavam da obra e que viam uma história de amor bonita… Confesso que não tive paciência para levar a sério o livro. Enquanto crítica foi impossível ler o livro sem chorar a rir e pensar “Meu Deus, eu que sou portuguesa escrevo melhor inglês que a mulher!”. Eu já estudei sado-masoquismo na literatura… mas acho que o maior masoquismo aqui é chegar ao livro. Never again shall I endure this oppression!

    Ficou a review em inglês (pouco séria): http://illusionarypleasure.blogspot.pt/2012/07/50-ways-to-traumatize-people-or-my.html

  3. Adeselna Davies on Julho 26th, 2012 16:14

    Não sei se o último comentário ficou, mas mesmo assim volto a repetir:
    Não entendo o porquê das pessoas dizerem que isto é uma história de amor! Tudo bem, podem gostar (hey há quem goste de Nicholas Sparks e Margarida Rebelo Pinto, tudo bem!), mas dizerem que o livro é bom e que é uma história de amor. Foi impossível conter o riso quando eles têm sexo: perdão o Grey nunca diz que faz sexo, ele diz que a vai foder! (uhh que marota) e magoa-a e ela pensa “Ai não foi assim tão mau, sobrevivi!”

    Sempre disse que preferia lavar os olhos com ácido e ter que voltar a ler isto! Mas, ossos do ofício irei fazer uma espécie de podcast sobre mulheres na literatura BDSM e irei pegar na Ana para contrastar com outras heroínas.

    Escrevi uma crítica menos eloquente, mas não consegui levar o livro a sério, quando uma nativa escreve pior que uma estudante de inglês como 2º língua…

    Ainda assim fica aqui a crítica em inglês: http://illusionarypleasure.blogspot.pt/2012/07/50-ways-to-traumatize-people-or-my.html Espero nunca mais ler nada da senhora na vida e nunca mais pego em nenhum livro que “tenha vendido mais que X” (ok eu sabia que ia ser mau, já tinha lido críticas, mas o choque foi grande)

  4. Casimiro Teixeira on Julho 26th, 2012 16:19

    Muito lhe agradeço por isto. Literariamente, vale muito mais esta deliciosa recensão, do que todas as 547 páginas de delírio pseudo-erótico deste infeliz fenómeno. Não culpo a pobre autora, pois de facto que culpa pode ela ter? Escreve mal? Até pode ser, mas quis transmitir a sua forma de ver o mundo, e sairam-lhe estas parcas sombras da cabeça, enfim… Entristece-me muito mais a avidez imensa do público pelo que é imediato e viral, a mediocridade da mentalidade de rebanho que faz um livro destes ter o sucesso retumbante que está a ter. Simplesmente é assim que as coisas funcionam, e pouco mais há a dizer.

  5. Ricardo on Julho 27th, 2012 8:14

    Estou enganado ou esta obra bate o recorde para avaliação mais baixa de sempre do Biblitecário?

    Eu pelo que lia sobre a obra, inclusivamente há menos de um mês num jornal que se quer sério como o DN, ainda pensei que isto fosse uma versão light do L’histoire d’O, mas quando vejo que isto faz MRP parecer Virginia Woolf, digamos que fiquei esclarecidíssimo sobre a natureza da “coisa”!

  6. José Mário Silva on Julho 28th, 2012 12:16

    Não estás enganado, Ricardo. É mesmo a avaliação mais baixa de sempre no Bibliotecário. Mas a verdade é que o Bibliotecário raramente se aventura nos pavorosos domínios do lixo literário.

  7. Maria João on Agosto 1st, 2012 16:21

    Quando li a sinopse, antes de todas as criticas, decidi que jamais iria ler um livro com uma história destas. Depois soube que tinha tido uma tal tiragem e achei que eu é que era esquisita, cada um gosta do que gosta. E finalmente, li a sua critica e senti-me em paz com a minha primeira decisão. Obrigada.

  8. Efeito 50 Shades | Bibliotecário de Babel on Agosto 6th, 2012 18:37

    […] Mário Silva em Um cerco em VenezaHugo Rodrigues em Um cerco em VenezaMaria João em Fenómeno GreyNuma de Letra em Um poder imenso, quase […]

  9. Catarina Taurino on Agosto 8th, 2012 13:43

    Olá
    Concordo com as criticas feitas, na verdade enquanto fui lendo, chegava a algumas das conclusões anteriormente referidas, no entanto, mentia se dissesse que tive dificuldade em concluir a sua leitura, porque li-o em alguma horas, mas o mais incrível é que em cada vez que mudava de capitulo, questionava-me “como é que eu ainda continuo a ler isto?”, mas sempre avançando de capitulo em capitulo até ao fim.
    Agora, que o livro está mal escrito?
    Está.
    A história é uma treta?
    Sem duvida alguma.
    O que o torna tão “badalado” é apenas as cenas de sexo, mais concretamente o sadomasoquismo?
    Não sei, muito sinceramente. Pelo menos não foi isso que me agarrou, embora tenha alguma dificuldade de definir o que foi. Talvez a forma tão básica e banal como está escrito, na maioria das vezes, conseguia imaginar uma Ana ao meu lado a relatar-me os episódio lá retratados.
    E pergunto.
    Será que as pessoas andam tão cansadas de perseguir a perfeição, ou a ideologia da mesma, que sentem este livro como uma lufada de ar fresco, ajudando-os a descontrair como se uma saída para os “copos” se tratasse?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges