Filhos de um deus maior

Vejo Uma Voz – Uma Viagem ao Mundo dos Surdos
Autor: Oliver Sacks
Título original: Seeing Voices
Tradução: Regina Faria
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 197
ISBN: 978-989-641-194-7
Ano de publicação: 2011

Neurologista de formação, Oliver Sacks tornou-se conhecido fora da comunidade médica com os livros em que expõe – num estilo cativante e fugindo sempre que possível aos formalismos dos artigos científicos – casos clínicos de pessoas que conseguem adaptar-se às limitações impostas por certas doenças. O primeiro livro, de 1970, abordava os vários subtipos de uma maleita comum: a enxaqueca. O segundo, de 1973, trouxe-lhe a fama: Despertares, sobre as vítimas de uma epidemia de encefalite letárgica que ele resgatou de uma espécie de eterno marasmo com a ajuda de um novo medicamento (história que seria adaptada ao cinema por Penny Marshall, em 1990, num filme com Robert De Niro e Robin Williams). Nos livros seguintes, debruçou-se sobre outros problemas neurológicos – da Síndrome de Tourette à doença de Parkinson, passando pelo autismo, daltonismo, afasias, amnésias, cegueira, etc. –, quase sempre com a mesma estrutura: um conjunto de ensaios relativamente curtos, em que Sacks narra, sem poupar nos detalhes, a história de pacientes concretos, mostrando de que forma cada um desses casos corrobora determinadas teorias vigentes sobre o funcionamento do cérebro e dos mecanismos da percepção, da memória e da identidade humana.
O livro que a Relógio d’Água acaba de editar foi originalmente publicado em 1989 e leva-nos, como o subtítulo sugere, numa «viagem ao mundo dos surdos». Não deixando de abordar aspectos neurológicos do problema e a evolução do lugar ocupado pelas pessoas com défices auditivos na sociedade, Oliver Sacks interessa-se sobretudo pelas várias formas de linguagem associadas à experiência da surdez, nomeadamente os vários tipos de língua gestual, que não apenas se tornam «a voz dos surdos» como têm uma complexidade (ao explorar, por exemplo, a dimensão espacial) e uma autonomia evolutiva em relação às línguas faladas que fazem delas o instrumento de uma cultura específica, em nada inferior à cultura oficial dos falantes. Sacks dá muitos exemplos dos desafios que os surdos têm de enfrentar, separando claramente as águas entre os que são pós-linguísticos (como David Wright, que perdeu a audição depois de adquirir a linguagem, o que lhe permitiu continuar a ouvir «vozes-fantasmas») e os pré-linguísticos, que nunca chegam a ouvir os pais e se arriscam a ficar definitivamente tolhidos nas suas capacidades cognitivas.
Em Vejo uma Voz encontramos um caudal de conhecimento e análise séria sobre a questão da surdez, mas transmitida ao leitor quase ao jeito de um bombardeamento intelectual, com a prosa de Sacks a revelar-se muito mais neutra, compacta e exaustiva (atente-se na profusão de notas de rodapé, por vezes ocupando a página quase toda) do que em outras obras. Quem vier à procura das histórias curiosas e literariamente conseguidas de O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu (Relógio d’Água, 1990) ou do estilo ágil com que escreveu as suas memórias de infância (O Tio Tungsténio), talvez fique desiludido. Exceptuando o relato da visita a Martha’s Vineyard – a ilha onde a Língua Gestual era «falada» tanto pelos muitos surdos hereditários como pela restante população – e o diário da revolta na Universidade Gallaudet, uma escola para surdos em que os alunos exigiram ter um reitor surdo, o livro é pouco entusiasmante. Contudo, enquanto obra que apresenta, situa e defende uma «cultura» ainda pouco ou mal conhecida pelo público generalista, Vejo uma Voz cumpre perfeitamente a sua missão.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges