Fiódor em Cabul

Maldito seja Dostoiévski
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Maudit soit Dostoïevski
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-97474-5-6
Ano de publicação: 2011

No momento em que racha o crânio de uma velha com um machado, replicando o célebre gesto de Raskólnikov, Rassul sabe que está a cometer uma espécie de plágio. Ainda antes de a ver caída sobre um tapete vermelho e negro, gradualmente manchado de sangue, «passa-lhe pela cabeça» a história de Crime e Castigo. Atiq Rahimi podia apostar num simples decalque do romance de Dostoiévski, correndo sérios riscos de soçobrar num pastiche pretensioso. Ao fazê-lo como o faz, atribuindo ao protagonista a imediata consciência da emulação de Raskólnikov, mas também um sentimento de impotência e raiva por não conseguir imitar à risca o seu destino, torna muito mais subtil e interessante o jogo da intertextualidade.
Embora replique as traves-mestras da narrativa de Dostoiévski, Rahimi sabe perfeitamente que o Afeganistão dos anos 90, após a retirada das tropas soviéticas, nada tem a ver com a S. Petersburgo do século XIX. Por muito que o crime e os consequentes remorsos se assemelhem, tudo o resto é diferente. A escrita depurada do autor franco-afegão, aliás, preocupa-se mais em sublinhar as diferenças do que as semelhanças. Quando assassina Alia, uma mulher horrenda, agiota e proxeneta, que obrigara a sua noiva a prostituir-se, Rassul pretende não apenas vingar-se mas apropriar-se do seu dinheiro e jóias, com os quais tenciona ajudar a mãe e a irmã, sozinhas após a morte recente do patriarca da família. E é aqui que as histórias se começam a separar. Ao contrário de Raskólnikov, Rassul foge do local do crime de mãos vazias, o que torna algo impalpável e até duvidosa a sua culpa, uma vez que o cadáver e respectivos bens desaparecem misteriosamente – permitindo, até, a hipótese de o crime se ter dado apenas na sua cabeça.
Com o choque emocional, Rassul perde a voz e deambula por uma Cabul de pesadelo que cheira a enxofre e «podridão», sacudida por explosões e dominada pelos «barbudos», mujahedines que depois de expulsarem os soviéticos se digladiam em guerras tribais. Para escapar à «fornalha do ódio» em que se transformou o seu país, Rassul afunda-se nas salas de fumo, por entre nuvens de haxixe, a planar «nos abismos poéticos do cânhamo». Ele sempre preferiu o orgulho à altivez, mas agora sente-se vítima do seu próprio crime, incapaz de lidar com a «lâmina do destino» ou sequer com a ideia de um suicídio redentor. O sofrimento que o rói por dentro, como uma «ferida aberta, incurável», leva-o ainda assim a entregar-se à Justiça, só para descobrir que esta não existe – é um edifício abandonado, vazio, às moscas.
No fim de uma labiríntica sequência de peripécias, Rassul consegue finalmente ser julgado. E a ironia explode-lhe na cara. Porque ninguém se preocupa com o seu crime, a não ser ele. Como lhe explica um comandante militar: «o assassínio é um crime quando a vítima é um inocente. Essa mulher devia ser castigada. (…) Àquilo que fizeste, chama-se vingança. Ninguém tem o direito de te julgar como assassino.» Mais do que sacrificar-se aos seus fantasmas, ele pretende que o seu processo seja um testemunho «sobre estes tempos de injustiça, de mentira, de hipocrisia», e que a punição do seu crime sirva de exemplo, num país em que todos os valores colapsaram.
Muito intensa, muito rápida (abundam as frases curtas, em staccato), muito persa (com fortes imagens poéticas e personagens que contam histórias maravilhosas), a escrita de Rahimi surge ainda mais refinada do que nos livros anteriores, mantendo a sua imensa capacidade efabulatória.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges