Flor triste da areia

fante

Pergunta ao Pó
Autor: John Fante
Título original: Ask the Dust
Tradução: Rui Pires Cabral
Editora: Ahab
N.º de páginas: 212
ISBN: 978-989-96340-0-8
Ano de publicação: 2009

Há escritores que têm a má sorte de publicar as suas obras-primas no momento errado. Foi o que aconteceu, em 1939, com John Fante (1909-1983). O seu terceiro romance, Ask the Dust (Pergunta ao Pó), surgiu com chancela da Stackpole Sons, pouco depois desta ter lançado uma versão não autorizada da bíblia hitleriana, Mein Kampf, que levou a editora à barra dos tribunais e quase à falência. Sem verba para promoção, o livro passou praticamente despercebido e hipotecou as esperanças de Fante, que viria a desperdiçar o seu talento, durante décadas, a escrever guiões hollywoodescos de segunda categoria.
A redescoberta da sua obra dá-se apenas na década de 80, quando Charles Bukowski exigiu à Black Sparrow Press a reedição de Pergunta ao Pó. «Fante era o meu deus», confessa Bukowski no prefácio que escreveu para o livro, depois de explicar como certo dia ficou parado, de pé, na Biblioteca Pública de Los Angeles, a ler aquele «violento» e «enorme milagre», aquela forma de dizer as coisas que passaria a ser uma influência maior da sua própria escrita: «As frases corriam ligeiras pela página fora, havia como que um fluir. (…) Era a própria substância de cada frase que dava forma à página, como qualquer coisa que tivesse sido esculpida no papel. Eis ali, finalmente, um homem que não temia as emoções.»
O protagonista de Pergunta ao Pó é Arturo Bandini, um alter ego de Fante e protagonista de quatro dos seus romances. Italiano de segunda geração, ele troca a pasmaceira do Colorado natal pela confusão inebriante de Los Angeles, onde chega determinado a tornar-se um escritor de sucesso e a ocupar a «prateleira dos Bs» na biblioteca pública, perto dos gigantes das letras que se habituou a venerar (Dreiser, Mencken, Faulkner). Mas a glória literária não surge por geração espontânea. Enquanto aprende umas coisas sobre a vida, única forma de «reunir material» para o grande romance que sonha escrever, a existência quotidiana vai-se revelando um território hostil, cheio de alçapões e zonas de sombra. Ele dorme num hotel manhoso, conta as moedas para pagar a renda e as laranjas que lhe matam a fome, espera ansiosamente os raros cheques enviados pelo seu editor nova-iorquino, esbanja o dinheiro sem critério, deambula por L.A. e canta a «linda cidade que eu tanto quis, flor triste da areia, linda cidade», afunda-se nos abismos da culpa católica e numa história de amor sem saída (com Camilla, uma mexicana empregada de café), naufraga e renasce várias vezes, entrega-se ao «vivo assombro da noite» e ao «pó turbulento» que paira no ar (vindo do deserto do Mojave), oscila entre o mais fundo desespero e os delírios de grandeza; revelando-nos, enfim, a sua humanidade de todas as formas possíveis, num dos mais pungentes retratos de um escritor em devir que alguma vez li.
Refira-se que o poder deste texto extraordinário – atravessado por uma energia vital tão intensa que quase nos cega – chega intacto à nossa língua, mercê da magnífica tradução de Rui Pires Cabral (uma das melhores do ano, se não a melhor).

Avaliação: 9/10

[Versão ampliada de um texto publicado no número 86 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Flor triste da areia”

  1. Gerana Damulakis on Janeiro 5th, 2010 16:27

    Ótima resenha. Os livros de Fante arrastam o leitor junto com ele.
    Gostei do filme também, coisa rara, geralmente não gosto das passagens do livro para a tela grande.

  2. O que aí vem (Ahab) | Bibliotecário de Babel on Janeiro 11th, 2010 23:25

    […] em 2010: confirmar que a excelente entrada em cena (com os livros A Ilha, de Gianni Stuparich; Pergunta ao Pó, de John Fante; e Pudor e Dignidade, de Dag Solstad) não foi fruto do acaso ou de simples […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges