Grandes americanos

De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas
Autor: Barack Obama
Ilustrações: Loren Long
Título original: Of Thee I Sing : A Letter to my Daughters
Tradução: Maria Marques
Editora: Alêtheia
N.º de páginas: 35
ISBN: 978-989-622-262-8
Ano de publicação: 2010

Lançado em Novembro nos EUA, numa edição de meio milhão de exemplares que rapidamente entrou nas listas de best-sellers, De Ti Eu Canto – Carta às Minhas Filhas é o primeiro livro que Barack Obama publica desde que foi eleito presidente, em 2008. Poucas semanas após uma significativa derrota eleitoral, que lhe vai dificultar a governação nos próximos tempos, este volume destinado a crianças com idades entre os quatro e os oito anos funciona como um regresso às origens do projecto político de Obama, fundado num incondicional optimismo, num desejo de mudança e na fé inabalável de que a América pode mostrar de novo a sua melhor face ao mundo, depois dos anos negros da Administração Bush.
Como é evidente, o livro não pretende doutrinar as criancinhas. Mas também não é uma historieta anódina para ler à hora de dormir. Escrito para as filhas Sasha (hoje com nove anos) e Malia (doze), De Ti eu Canto pode ser visto como um tributo a 13 homens e mulheres que simbolizam, para Obama, o espírito americano e os princípios que foram moldando o país desde a sua fundação. Nas suas escolhas, há uma certa ideia da América que emerge: tolerante, multicultural, capaz de integrar as diferenças. Se algumas são óbvias (Albert Einstein, Martin Luther King, Neil Armstrong, Abraham Lincoln ou George Washington) e outras menos óbvias (Georgia O’Keeffe, Helen Keller, Billie Holiday ou Jackie Robinson, o primeiro negro a jogar numa equipa da primeira liga de basebol), outras há que são no mínimo surpreendentes, casos de Cesar Chavez, um sindicalista que defendia os direitos dos camponeses pobres (e que usou o slogan «Sí se puede», inspiração directa para o famoso «Yes, we can»), ou de Touro Sentado, o chefe sioux que fez frente ao governo dos EUA e derrotou Custer na batalha de Little Big Horn. Obama realça o facto de ele ter sido um curandeiro «que sarava corações partidos e promessas desfeitas», mas é previsível que os opinion makers republicanos não lhe perdoem a inclusão de uma tal figura no cânone dos heróis da nação.
A estrutura do livro é muito simples. Obama começa por dirigir-se directamente a Sasha e Malia, por baixo de uma ilustração em que as meninas marcham à frente de Bo, o cão presidencial de origem portuguesa: «Já vos disse como são maravilhosas? Como o som dos vossos passos a correr lá ao longe traz música ao meu dia?» As perguntas tornam-se depois mais específicas e são o pretexto para falar das tais figuras exemplares que encarnam as qualidades que o pai vê nas filhas: «Já vos disse que são inteligentes?» (Einstein), «Já vos disse que são bondosas?» (Jane Addams), etc. As perguntas aparecem sempre na página da esquerda, ao alto, enquanto na página da direita meia dúzia de linhas resumem o essencial da personalidade ou feitos do herói evocado. À esquerda, podemos ainda ver o dito herói ou heroína em criança, olhando para si próprio na idade adulta, diante de um grupo formado por Malia, Sasha e as crianças que foram surgindo nas páginas anteriores. O grupo vai crescendo até que no fim acaba por fundir-se com uma multidão de crianças anónimas. A moral da história é clara como a água: Obama não só reconhece as qualidades dos grandes americanos nas suas filhas, como as reconhece em todas as crianças do país, dando a entender que serão eles os grandes homens e mulheres do futuro.
Apesar da brevidade dos textos, encontramos neles a habitual eloquência de Obama, aqui e ali empolada por uma retórica delicodoce ou empobrecida pelo recurso a lugares-comuns (Jackie Robinson «balançava o taco com a graça e a força de um leão»; Luther King «deixou-nos o sonho de que todas as raças e credos caminhem de mãos dadas»; a voz de Billie Holiday, «plena de tristeza e de alegria, tocava fundo nos corações»; etc.). Mas Obama quando acerta no tom, acerta em cheio. Veja-se a descrição que faz de Georgia O’Keeffe: «Uma mulher chamada Georgia O’Keeffe foi viver para o deserto, onde pintou pétalas, ossos, cascas de árvores. Ajudou-nos a ver beleza nas pequenas coisas: na dureza da pedra e na suavidade das penas.» O efeito destas evocações singelas é aumentado pela subtileza das magníficas ilustrações de Loren Long. Por exemplo: o rosto de Touro Sentado é formado com elementos da paisagem em que vivia (cavalos, bisontes, árvores, a terra, o crepúsculo), enquanto o de Maya Lin, que aos 21 anos desenhou o memorial aos veteranos do Vietname, em Washington, aparece reflectido na parede de basalto do monumento.
Obama escreveu o livro antes de entrar para a Casa Branca, em Janeiro de 2009, e junta-se a outros dois presidentes que também publicaram livros para crianças: Theodore Roosevelt (Hero Tales from American History) e Jimmy Carter (The Little Baby Snoogle-Fleejer), embora estes apenas o tenham feito depois de abandonarem o cargo. Segundo a Associated Press, Obama enriqueceu à conta dos seus primeiros livros (A Minha Herança e A Audácia da Esperança, ambos publicados em Portugal pela Casa das Letras), com os quais terá feito, desde 2007, mais de 12,5 milhões de dólares em direitos de autor. Neste caso, porém, não receberá um único cêntimo, uma vez que já destinou a parte que lhe cabe nas vendas a um fundo de bolsas escolares para filhos de soldados mortos ao serviço dos EUA.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges