Histórias contadas

O Homem do Turbante Verde e outras histórias
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Caminho
N.º de páginas: 187
ISBN: 978-972-21-2408-9
Ano de publicação: 2011

Trinta anos depois da retumbante estreia literária (Contos da Sétima Esfera), e onze anos após o último volume de narrativas curtas (Contos Vagabundos), Mário de Carvalho regressa ao seu habitat natural com O Homem do Turbante Verde. E em grande forma. Não que os seus romances e novelas sejam obras menores, longe disso, mas há no seu perfil de ficcionista uma apetência pela forma breve, um talento para o relato de poucas páginas, que o coloca, sem margem para dúvidas, no restrito panteão dos melhores contistas da literatura portuguesa.
Atente-se, por exemplo, no ritmo perfeito e acabamento sem mácula de O Celacanto. Começa por nos mostrar o narrador ao telefone com uma ex-namorada, enquanto enrodilha o fio espiralado do telefone nos «dedos incautos». Só isto já nos situa no tempo, anterior à omnipresença dos telemóveis e dos aparelhos fixos sem fios. Descobrimos depois que Jacinta, a tal ex-namorada vagamente autoritária, é sócia de uma galeria de arte que aposta em «instalações» de jovens artistas. Ora Jacinta, «para honrar a exposição», decide mandar vir de Moçambique, meio às escondidas, um «planetariamente protegido» celacanto, raríssimo peixe-fóssil, pardo e feio, transportado de avião como se fosse um mero «xarroco tropical». Nessa altura, o fantástico irrompe na narrativa: afinal o bicho paira no ar, junto ao tecto, antes de fugir da galeria para a Rua da Escola Politécnica. O que se segue é Mário de Carvalho vintage: personagens à beira de um ataque de nervos, correrias, altercações, volte-faces e um desfecho irónico, a que não falta o «brilho de escamas» que o peixe voador vai deixando em ombreiras e parágrafos.
Se há histórias ansiosas por serem contadas (ideia sugerida pela epígrafe de Luísa Costa Gomes), o autor de O Conde Jano faz-lhes a vontade, aliando o esmero narrativo a uma certa volúpia no uso da nossa língua e seu vasto vocabulário. Em O Homem do Turbante Verde assistimos ao conceito de guerra preventiva levado ao extremo, algures no Iraque ou no Afeganistão, quando o exército americano rapta crianças para as usar como moeda de troca – neste caso, única forma de salvar arqueólogos transformados em escudos humanos. Na Terra dos Makalueles é um «capricho» literário divertidíssimo, com as influências todas à vista (confira-se o nome dos navios). Depois, uma sequência de três textos abordam um dos temas recorrentes do autor: a memória afectiva da luta anti-fascista, aqui feita de surpresas, desilusões e sobretudo de um certo desfazer da inocência, ou talvez da ingenuidade. Numa dessas histórias (A secção de campo), frustra-se a tentativa de mostrar Eisenstein a camponeses, porque estes preferem o sossego à incerteza do que carece de autorização oficial. E em Bildung acompanhamos um jovem no processo de descobrir que o amor por vezes não dura mais do que o desfraldar de uma bandeira.
À medida que avançamos no livro, o carácter faceto desta escrita (evidente na história rocambolesca do homem que tenta, tenta, mas não consegue sair do Porto) vai dando lugar a atmosferas mais densas e opressivas. Na secção final – muito negra, pessimista, kafkiana – mergulhamos no absurdo das relações sociais equívocas (O chochman), na violência absoluta a que se submete um ser humano atirado para uma via crucis involuntária (A longa marcha) e no fechamento literal a que conduz a paranóia (O reduto).
Voltemos um pouco atrás: «Renato ouvia vagamente, intrometendo-se no clamor, como um veio precioso na escória, a voz alteada e fina de um pequeno homem de pêra que levantava um dedo enristado, e se dirigia, furioso, ao comissário de polícia. Num instante, a multidão oscilou, dividiu-se, sombras correram, a vaia modelou-se em vozeios diferenciados, crepitaram ruídos corridos de passos, desaustinaram tropeios de botas.» Por muito que as histórias sejam bem arquitectadas e as personagens construídas com minúcia, o que torna este livro extraordinário é a prosa inigualável de Mário de Carvalho.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]



Comentários

One Response to “Histórias contadas”

  1. Paula on Agosto 26th, 2011 17:26

    Subscrevo por inteiro o último parágrafo: a prosa é inigualável.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges