Idade do gelo

Este Frio e outras histórias de amor
Autora: Paola d’Agostino
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Editora: Fenda
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-603-044-5
Ano de publicação: 2012

Aproveitando o buraco virtual do fuso horário entre Portugal e Espanha, um arquivista aéreo organiza as memórias de que os passageiros se desfazem durante a viagem de avião entre as duas capitais ibéricas (acontece tudo no interior de uma nuvem usada como «vazadouro» de informação descartável, mas uma nuvem das verdadeiras, não a famosa cloud partilhada dos gadgets digitais). Num prédio lisboeta, desenreda-se o drama da violência entre amantes, todo contado do ponto de vista da vítima que hesita em libertar-se de uma prisão afectiva auto-infligida. O namoro entre um electricista que mudou de nome inspirado por John Fante (passou a chamar-se Arturo, como o protagonista de Pergunta ao Pó) e uma rapariga prestes a mudar-se para a Turquia, à distância de um voo da Easyjet, vai-se desfazendo em dia de aniversário, mais por inércia e tédio do que por desilusão.
As narrativas de Paola d’Agostino (n. 1975), agora reunidas em Este Frio e outras histórias de amor, são crónicas subtis, mas amargas, sobre o modo como a temperatura de uma relação pode cair de repente abaixo de zero, gerando à sua volta uma idade do gelo emocional. Elípticos, cortantes, por vezes ásperos, estes contos nem sempre encontram o tom certo (veja-se a simetria forçada de O Pai Natal e outros viajantes ou a metáfora simplista de Desassossego dos Peixes Vermelhos). Nos seus melhores momentos, porém, a escritora revela um domínio surpreendente das frases de efeito: «Quando se movia, era como se empurrasse uma carga de raiva»; «A sua beleza era sempre imprevista».
Da meia dúzia de textos, o que dá título ao volume é manifestamente superior aos outros, no modo como descreve o processo de arrefecimento existencial e o solipsismo agudo de um homem fechado em casa, para quem «a imobilidade é uma vertigem» e «um hábito», a solidão «uma contingência» e a liberdade «um estado mental» – tudo palcos para medos à solta, cujos nomes de etimologia latina impressionarão o leitor incauto mas infelizmente não servem sequer para esconjuro.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges