Jerusalém no meio do Alentejo

Jesus Cristo bebia cerveja
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 248
ISBN: 978-989-672-133-6
Ano de publicação: 2012

As primeiras páginas de Jesus Cristo bebia cerveja parecem indiciar uma brusca mudança de rumo na obra ficcional de Afonso Cruz. Em vez de uma fantasia erudita borgesiana (como a que encontramos nos dois volumes da Enciclopédia da Estória Universal), de uma complexa estrutura narrativa (A Boneca de Kokoschka) ou de uma sofisticada biografia imaginária (O Pintor Debaixo do Lava-Loiça), eis uma abertura quase neo-realista. No Alentejo profundo, parado no tempo, passa uma patrulha da GNR; uma velha urina na rua, agarrada à neta; ouvem-se histórias de infidelidades e de suicidas que se atiram para dentro de um poço.
Gradualmente, porém, vamos compreendendo que o autor decidiu apenas transpor para uma paisagem que conhece bem (pois vive num monte alentejano) os seus temas habituais, as suas idiossincrasias estilísticas e a sua mundividência. Afonso Cruz pode ter pedido o cenário de empréstimo a Manuel da Fonseca, mas tudo o resto é fruto da sua exuberante imaginação. A começar pela figura de uma milionária inglesa que comprou a aldeia inteira e a restaurou, mulher de porte aristocrático que dorme numa cama com um dossel esculpido na ossada de um cachalote. Ao acordar, Miss Whittemore «bebe um chá de jasmim-pérola importado de Singapura, com duas gotas de leite: uma gota de leite de burra e outra de leite de porca» – e não é essa a maior das suas extravagâncias. Gosta, por exemplo, de discutir tudo e mais alguma coisa, à refeição, com um sábio hindu, um feiticeiro africano e um materialista ateu, contratados especificamente para esse fim.
Esses debates, cujo arco é tão amplo que abrange de uma só vez as premissas do budismo, a cabeça de Berkeley (com «todo o universo» lá dentro) e a importância do ADN (o «ácido impronunciável» que codifica em quatro letras apenas – A, T, C, G – a essência dos seres vivos), levam a narrativa para o território preferido de Afonso Cruz: o das ideias. Aliás, todos os pretextos são bons para evocar pensadores de outros séculos. Assim surge uma parede que se enche subversivamente de versos do epicurista Diógenes de Oenoanda (pintados pela calada, num acto de puro «vandalismo filosófico»), ou até uma mulher que fica sexualmente excitada ao ouvir citações de Nicolau de Cusa.
O materialista ateu, «operário da Ciência» nas suas próprias palavras, é o septuagenário professor Borja, caricatura do sábio ostracizado e algo confuso, incapaz de lidar com o facto de ninguém lhe dar a importância de que se julga merecedor. Quando abandona o seu isolamento, de tremenda solidão e desvario teórico, torna-se o principal impulsionador do projecto que vira do avesso a aldeia. Ao perceber que o grande desgosto da avó de Rosa, a rapariga por quem se apaixonou, é morrer sem ter ido à Terra Santa, engendra uma farsa monumental em que se finge tudo: a aldeia passa a ser Jerusalém; uma barragem, o mar Morto; o bar de strip em forma de avião, uma aeronave capaz de voar; e os habitantes mascarados, judeus ortodoxos com kipah e caracóis nas patilhas. Se a velha Antónia acredita na encenação – durante a qual se defende que Jesus Cristo bebia cerveja, o «pão líquido», acessível a todos, em vez de vinho, a bebida dos ricos e dos romanos, os invasores – isso já é outra história.
Afonso Cruz é quase perfeito na caracterização das personagens (de um PIDE, diz-se que era «um homem baixo, também fisicamente»), na articulação das histórias e na voluptuosidade da escrita, pródiga em aforismos e achados poéticos. O único devaneio meta-literário (a inclusão, num livrinho à parte, do breve western que Rosa cita amiúde) também faz todo o sentido. Lamenta-se apenas que o final algo frouxo, sobre o triste destino da protagonista depois de ir para Lisboa, não esteja à altura do grande romance que “Jesus Cristo bebia cerveja” é.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



Comentários

2 Responses to “Jerusalém no meio do Alentejo”

  1. xico on Junho 28th, 2012 23:58

    Santo Deus… Não teria sido mais barato, prático e fácil, levar a pobre velha à Terra Santa?

  2. Afonso Cruz na FNAC Chiado | Bibliotecário de Babel on Julho 22nd, 2012 14:45

    […] logo, às 17h00, Afonso Cruz lança os seus dois últimos livros (Jesus Cristo bebia Cerveja e Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria, publicados pela Alfaguara) na […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges