Laranjas de Jaffa

Todas as Cores do Vento
Autor: Miguel Miranda
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-972-0-04401-3
Ano de publicação: 2012

No seu sétimo romance, Miguel Miranda narra as histórias cruzadas dos habitantes de um mesmo prédio lisboeta, com a particularidade de albergar, a três pisos de distância, um judeu que montou uma loja de penhores no centro da cidade (depois de ver mulher e filhos mortos por um bombista suicida em Jerusalém) e um árabe palestiniano, professor de alaúde e devoto do Corão. Esta receita para o desastre, corolário dos previsíveis ódios e preconceitos religiosos, só não se cumpre por milagre, quando as forças do acaso se conjugam in extremis para evitar uma tragédia em marcha, nascida de uma sucessão de equívocos e reacções pavlovianas. A este foco de conflito, juntam-se uma mulher madura e rezingona que trabalha na portagem de uma auto-estrada; um velho que supostamente está a escrever uma tese sobre Brás Cubas (a figura histórica do século XVI), mas na verdade controla as entradas e saídas dos vizinhos; um senhorio indiano que não resolve problemas mas dá muita música; um poeta obsessivo-compulsivo, em pânico com a perspectiva de perder a herança que lhe permite viver só para os versos; e um gato que deambula por todos os andares, ganhando nomes diferentes – Napoleão, Quincas, David, Faisal – consoante os condóminos.
Além do felino ubíquo, o protagonista do livro é Herberto Brum, o poeta cheio de manias e fobias (claustrofobia, agorafobia, alergia à água, aversão aos germes, etc.), um homem que fala consigo mesmo, devassa o lixo alheio, pendura os poemas em curso na parede e nunca se sente bem na sua pele. O silêncio e a ordem angustiam-no; o barulho e o caos, idem aspas. Na verdade, tudo suscita os seus medos e paranóias. Por exemplo, quando é forçado a usar o elevador, encara a máquina como se fosse a guilhotina ou uma terrível boca trituradora: «Acossado pelos sons, avançou um passo em direção às fauces do monstro metálico e viu a porta encerrar-se, mandibular, com um ruído de encaixe cavo.»
A principal virtude de Miguel Miranda está na forma como consegue tornar nítidas as situações e dilemas das personagens, aliando a fluidez narrativa à ironia, numa prosa ágil que muitas vezes desemboca em momentos de pura hilaridade. Se nem todos os alicerces do romance são sólidos (há uma história de amor electrónico bastante frouxa; páginas em que se sente falta de fôlego; outras com escassa vigilância estilística), o certo é que o prédio aguenta-se. E as laranjas de Jaffa, símbolos de paz que a má-fé confunde com explosivos, são um achado.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges