Lição das trevas

Um Teatro às Escuras
Autor: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-972-20-4401-1
Ano de publicação: 2011

Vinda lá de trás, uma personagem sem nome atravessa uma «floresta de cadeiras» e senta-se junto a outra personagem sem nome, na primeira fila. Então, as luzes apagam-se de súbito e elas saltam, «incandescentes», para o «palco que nunca ninguém viu». Que palco é este? Que personagens são estas? De onde veio e para onde vai o «drama inexistente» de figuras que se procuram, de poema para poema, tacteando no mais denso negrume? Não o saberemos. Em Um Teatro às Escuras, de Pedro Tamen (Dom Quixote), as perguntas desfazem-se no próprio momento em que são enunciadas. Aquele palco abstracto pode ser o mundo, a noite do mundo, a vida, mas isso não o torna mais concreto nem compreensível.
A única certeza é a de que as personagens que se procuram são um Ele e uma Ela, vozes perdidas nas trevas, duvidando de tudo e de si mesmas. São arquétipos, Adão e Eva sem um Éden que lhes dê sentido, perdidos num espaço que parece a antecâmara de outra coisa qualquer. Ansioso, Ele antecipa fulgores e cintilações, indícios que só ganham forma porque os evoca; enquanto Ela avança com «passos / de gazela insegura», mas ainda assim capaz de acreditar: «Piso estas tábuas e rebrilha / a crença em qualquer coisa que aconteça». Qualquer coisa que só pode ser o amor, com a sua força gravítica que transcende o vazio e permite o «milagre» do encontro.
Neste microcosmos opressivo, tudo está como que suspenso. O tempo, por exemplo, parou: «As horas não existem / quando nem sequer há lua». E, tal como nos estados prolongados de cegueira, a audição apura-se para compensar o que não se vê: «Se nos falta a luz não nos falta o som: / ouvem-se ramos de árvores roçagantes / e riachos, gente que fala ao longe / algo que não se entende, / o ruído do mel em certas bocas, / talvez uma andorinha.» As pessoas que falam à distância, fora do palco, são os profissionais do teatro que se descobrem subitamente desarmados pela escuridão: o electricista, o ponto ou o contra-regra (incapaz agora de distinguir a entrada em cena da saída). Cada um vai explicando a sua perplexidade – até o «autor da música», um Haydn «velho e feio» que se deixa adivinhar «sereno», «em estranha alegria» (talvez, imagino eu, com a partitura d’A Criação debaixo do braço). E há também vozes que chegam do público, questionando «se é vero amor ou poema» o que nasce do diálogo entre Ele e Ela. Sem esquecer o encenador, assumindo a sua impotência: «Tudo me ultrapassa / e ninguém me obedece. / Será isto uma peça? / Talvez uma arruaça / (pelo menos parece) / mas nada que se esqueça. / Sem luz ninguém dirige / palavras, corpos, gestos, / ou a fremente mão / que desliza ou transige.»
Numa das suas peças, Beckett reduziu o teatro ao foco de luz sobre um rosto, sobre uma boca. Tamen vai ainda mais longe e elimina a própria matéria dos corpos (desnecessários quando o teatro é para ser representado apenas na cabeça do leitor). Cada poema é uma corda, cada fala uma tentativa de vencer o deserto. Por isso a história só podia ser a da aproximação gradual dos amantes em potência, com a força do desejo maior, o de existirem um para o outro: «Nascemos vindos do escuro / e ora de repente aqui voltámos / ao escuro onde de novo nos fazemos. / E assim se faz fértil o negro nada / pelo qual perpassamos para o dia / de não ser preciso procurar / a mão ignorada que estendemos / e estreitaríamos se fosse dado vê-la / aos olhos que um dia bem abertos / nos hão-de ver totais e acordados.» Depois a luz regressa, mas só para esfumar de vez a ilusão.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 99 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “Lição das trevas”

  1. gaf on Abril 9th, 2011 11:00

    ora bem, Tamen vai mais longe que Beckett, deve ser por isso que Beckett continua vivo e este jaz na Ler.

  2. José Mário Silva on Abril 9th, 2011 12:09

    gaf,

    Está a ser mauzinho. O “mais longe” aqui não tem o significado que lhe atribui, como é óbvio.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges