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Lição de taxidermia

Beatriz e Virgílio
Autor: Yann Martel
Tradução: Fátima Andrade
Editora: Presença
N.º de páginas: 176
ISBN: 978-972-23-4385-5
Ano de publicação: 2010

Quase uma década após o êxito planetário de A Vida de Pi (2001), o livro que o projectou para a ribalta (Prémio Booker, milhões de leitores em mais de 40 países, contratos astronómicos), Yann Martel acaba de quebrar o longo silêncio que se seguiu à fama súbita – e respectivos bloqueios – com a publicação do terceiro romance: Beatriz e Virgílio, editado em Abril nos EUA e rapidamente traduzido para português. O protagonista é Henry, um escritor que parece um decalque perfeito de Martel, já que também alcançou um êxito inesperado com o segundo romance, em que entravam animais selvagens (A Vida de Pi, recorde-se, narrava a história da deriva oceânica de um rapaz indiano que dividia o bote salva-vidas com um tigre de Bengala e outros bichos).
Após algumas reflexões dispensáveis sobre a vida de um escritor de sucesso e o modo como interage com os leitores, Martel abre o jogo, ao explicar o projecto de escrita em que o seu alter ego consumiu cinco anos de trabalho: uma abordagem das formas de representação artística do Holocausto. Segundo Henry, as «liberdades poéticas» concedidas a outros temas difíceis ou traumáticos (como a guerra, em sentido lato) nunca se estenderam às narrativas sobre a morte organizada de milhões de judeus pelos nazis: «Esse evento terrível foi representado quase exclusivamente segundo uma única escola: o realismo histórico. A história, sempre a mesma história, sempre enquadrada pelas mesmas datas, localizadas nos mesmos sítios, com as mesmas personagens.» Contra esta «factualidade» estrita e a «resistência à metáfora artificiosa», Henry advoga outras formas de narrar a experiência do mal absoluto, na linha do que Art Spiegelman fez em Maus. Passando da teoria à prática, escreve então um «duplo livro» – metade ensaio, metade romance (ou seja, um flip book com duas capas) – em que defende e exemplifica as suas ideias. Mas os editores arrasam o manuscrito, num almoço que se assemelha a um fuzilamento, e recusam publicá-lo.
Destroçado, Henry decide mudar de vida. Instala-se com a mulher grávida numa grande cidade estrangeira, tem aulas de clarinete, faz teatro, passeia o cão, deixa-se estar. O único contacto que mantém é com os leitores, a cujas cartas responde sempre. E é justamente um dos leitores que lhe envia certo dia o excerto de uma peça teatral inédita, espécie de variação beckettiana em que uma personagem (Virgílio) explica a outra (Beatriz), junto a uma árvore num caminho deserto, o que é uma pêra. Junto ao texto, um seco pedido de ajuda. Perplexo, Henry decide investigar e descobre o autor da peça, ainda inacabada: um taxidermista homónimo, áspero e nada sociável, que mantém a sua loja aberta por mera casmurrice.
A ajuda solicitada é literária e Henry empenha-se, percebendo rapidamente que as personagens correspondem a dois animais empalhados na oficina do taxidermista: uma burra (Beatriz) e um macaco-uivador (Virgílio). Mais lenta é a sua compreensão da verdadeira natureza do texto dramático. À medida que Beatriz e Virgílio falam «do que nos aconteceu, um dia», uma história de violência e extermínio, torna-se evidente que os «Horrores» perpetrados sobre os animais representam apenas outra forma de descrever o inominável, como o próprio Henry em tempos defendera.
O problema deste livro não está numa eventual trivialização do Holocausto (os animais a representarem os judeus) mas na trivialidade dos seus processos narrativos. Sob a capa de uma alegoria provocadora, ele limita-se no fundo a contar a «mesma história» de que supostamente queria fugir, só que mal. Embora se pretenda sofisticada (com os seus vários planos narrativos), a escrita é apenas confusa, sem rasgo nem brilho, e muitas vezes insuportavelmente pretensiosa (as referências a Dante ou Diderot, por exemplo, são logo muito bem explicadinhas, não se dê o caso de o leitor não as compreender).
Vendo bem, Martel assemelha-se mais ao Henry-taxidermista do que ao Henry-escritor. O seu livro é como os animais expostos na loja: num relance, parecem vivos e perigosos; mas por dentro são feitos de matéria inerte, cuja única função é encher um espaço vazio.

Avaliação: 3,5/10

[Versão revista e ligeiramente aumentada do texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges