Madeira e marfim

A Lebre de Olhos de Âmbar – Uma Herança Escondida
Autor: Edmund De Waal
Título original: The Hare with Amber Eyes – A Hidden Inheritance
Tradução: Maria Lúcia Lima
Editora: Sextante
N.º de páginas: 321
ISBN: 978-972-0-07171-2
Ano de publicação: 2012

Professor de Cerâmica na Universidade de Westminster, Edmund De Waal (n. 1964) é conhecido pelo carácter minimalista das suas peças quase indistinguíveis umas das outras («fileiras de vasos de porcelana céladon cinzento-azulado»). Se alguma dessa contenção formal passou para a escrita de A Lebre de Olhos de Âmbar, o seu extraordinário ensaio de memórias familiares, não é menos certo que estilisticamente o escritor está mais próximo da inventividade e assimetria dos netsuke, os minúsculos objectos decorativos japoneses do século XIX que recebeu em herança, do que da regularidade austera do seu trabalho de oleiro.
Quando, após a morte de um tio-avô, lhe vieram parar às mãos os 264 netsuke, primorosas miniaturas esculpidas em marfim ou madeira, representando as cenas mais díspares (uma serpente enroscada sobre uma folha de lótus; um monge adormecido sobre a escudela das esmolas; crianças a brincar com um elmo de samurai; a brancura insólita de uma lebre com olhos de âmbar), De Waal sentiu o peso do passado a cair-lhe sobre os ombros. Um dia, ao meter uma das peças no bolso, rolando-a entre os dedos, deu-se conta de que queria realmente saber como aquele «objeto tão suave e tão rijo, tão fácil de perder», sobrevivera durante um século e meio. «Deve haver uma maneira de reconstituir a sua história. Ser dono deste netsuke – herdeiro de toda a coleção – implica uma responsabilidade para com ele e para com os seus anteriores proprietários.»



Para honrar essa responsabilidade, lançou-se numa longa pesquisa sobre o percurso completo da colecção, a partir do momento em que entrou na posse da família, ao ser comprada em Paris, na década de 1870, por Charles Ephrussi, um primo do seu bisavô. Este parente, de que pouco sabia, é a porta de entrada para o labirinto da memória. Atrás deste dandy que encomendava quadros a Degas e Renoir, um janota que inspirou Marcel Proust na criação da figura de Swann, vêm os restantes Ephrussi, uma família de judeus que dominou o comércio de cereais e foi das mais ricas da Europa – antes de entrar em declínio, uma queda iniciada com o fim do Império Austro-Húngaro e concluída com a subida ao poder dos nazis. Durante dois anos, De Waal vagabundeou pelo locais onde os seus antepassados habitaram (Paris, Viena, Odessa, Tóquio), procurando o fio à meada do caminho seguido pelos netsuke na sua vitrina de vidro (com um espelho que os multiplicava até ao infinito), e descobrindo os detalhes das vidas de quem, noutros tempos, admirou as minúsculas «esculturas tácteis» vindas do Oriente.
«Não são só as coisas que têm histórias», escreve o autor. «As histórias também são uma espécie de coisas. As histórias e os objetos partilham algo, uma pátina.» É essa pátina que emerge das deambulações pelo passado, em arquivos, detendo-se em fotografias de primos do séc. XIX e em «envelopes no fundo de gavetas com os seus poucos e tristes aerogramas». A investigação, porém, nunca se fecha. Este não é um livro redondo. Quanto mais respostas consegue, mais perguntas o investigador tem para fazer. Por isso hesita muito («A realidade continua a escapar-me das mãos»; «Não consigo avançar»; «Sinto-me perdido»), duvida dos resultados que vai obtendo, recusa simbolismos e simplificações: «Sei que os meus antepassados eram judeus e assombrosamente ricos, mas não estou disposto a entrar no ramo das sagas a sépia com mais uma elegíaca narrativa da perda da Mitteleuropa. (…) Seria o género de história que se escreve sozinha, penso comigo. Alguns episódios saudosistas engastados uns nos outros, umas páginas sobre o Expresso do Oriente, claro, umas deambulações por Praga ou outro sítio igualmente fotogénico, com imagens dos salões de baile da Belle Époque tiradas do Google. Sim, daria um bonito livro nostálgico. E anémico.» Ora anémico este livro não é. Pelo contrário, todo ele vibra.
Empolgante e honesta, afectiva e rigorosa, escrita numa prosa belíssima, «A Lebre de Olhos de Âmbar» oferece-nos a admirável biografia de uma família, vista pelo prisma dos objectos que foi deixando para trás.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges