Manual de escritarias

quem_disser

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 276
ISBN: 978-972-0-04699-4
Ano de publicação: 2014

Este livro nasceu de um gesto de tremenda generosidade. Autor consagradíssimo, Mário de Carvalho podia deixar-se ficar quieto, descansadinho da vida, a gizar futuros romances e novelas lá no recato da sua oficina literária. Em vez disso, lançou-se na composição, «ao correr da pena», de um «guia prático» em que reúne «observações empíricas surgidas da experiência escrita, da memória do autor e duma ou outra consulta em segunda mão». Trata-se, nas suas palavras, de um «modesto trabalho», dirigido a ficcionistas aprendizes, a quem trata por «estimado futuro autor» ou por «escritor-em-progresso».
A nota prévia esclarece, logo na primeira frase, que não estamos perante um trabalho académico. Não há bibliografia, nem notas de rodapé. Colocando-se deliberadamente aquém dos estudos literários, e assumindo não ter pretensões no campo da «teorização narratológica», Mário de Carvalho limita-se – o que não é pouco – a partilhar o seu saber acumulado, insinuando caminhos, sugerindo obras e autores (para ler «de lápis em riste»), apelando ao espírito crítico e ao «exercício da curiosidade», tudo num registo coloquial e faceto, como quem nos pousa no ombro a mão amiga. Inteligentemente, socorre-se muito dos clássicos e pouco dos vivos: «Não houve precisão de desinquietá-los, nem eles carecem de menção. Todas as susceptibilidades podem, assim, permanecer intactas e triunfais. Pior para o autor destas linhas, que reteve a ocasião de elogiar.»
O tom é sempre este: o de um mestre bonacheirão, feliz por revelar, aos discípulos, uns quantos segredos do ofício. Durante a conversa com o leitor («temos estado aqui a tagarelar«), abarca-se quase tudo: a questão do cânone, as estruturas e técnicas narrativas, o paratexto, os incipits, a escolha dos títulos, os enredos, o problema da verosimilhança, o pacto ficcional, os vários tipos de personagens (com magníficos exemplos respigados em Eça, Camilo e José Cardoso Pires), a importância da ironia, a necessidade de um «detector de lugares-comuns», os diálogos (que nunca são naturais), o trabalho da linguagem, as exigências do estilo.
Não detectamos em Mário de Carvalho, porém, a tentação de pontificar. Sempre que remata um tema, assistimos a um movimento de recuo, como quem assume que as coisas podem ser assim, mas também podem não ser. «É preciso lembrar, a cada momento, que nestas matérias não há dogmas, nem imposições.» O autor diz de sua justiça, mas apenas isso. Depois, faça cada qual à sua maneira, como lhe aprouver. Exactamente o oposto das fórmulas e prescrições típicas da maior parte dos cursos que tentam formatar os candidatos a escritores. «Pensar que se fica apto a escrever depois de ler um compêndio de escrita criativa é o mesmo que julgar que se passa a dominar uma língua após ter comprado um dicionário.»
Sem surpresa, Mário de Carvalho insurge-se contra as ideias feitas, esse «caruncho que pode corroer toda a reflexão, mesmo despretensiosa». O desafio é fugir do senso comum, porque este «confirma, não interroga; acata, não discute; conforma-se, não se rebela; repete, não indaga». E a fuga acontece no próprio acto de pensar o fenómeno literário, sem espartilhos de qualquer tipo. O livro tem uma estrutura bem montada, em seis partes (por pontos: «Pontos de Ordem», «Pontos de Mira», «Pontos de Referência», «Pontos de Vista», etc.), mas dentro desta arquitectura (em 59 capítulos), existe uma liberdade absoluta. Se o narrador pode afinal não ser Mário de Carvalho (refere-se a um «escritor meu conhecido» que publicou um livro chamado Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde), o certo é que partilham gostos, embirrações, entusiasmos, princípios estéticos, e até éticos.
Entre outras opiniões fortes, destaque-se a defesa dos experimentalismos oulipianos e de Stefan Zweig («um escritor com o qual vale a pena aprender»), bem como o elogio ao «grande» Aquilino Ribeiro, «pela graça que lhe repassa os textos, pela cultura solidíssima que os informa e pela exuberante imaginação verbal». No fundo, Mário de Carvalho limita-se a apreciar, num dos seus mestres, qualidades que também são as suas.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Manual de escritarias”

  1. João Pinto Coelho on Fevereiro 4th, 2015 22:10

    O que eu gostei de ler o seu texto, JMS.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges