Matéria negra

O Horizonte
Autor: Patrick Modiano
Título original: L’Horizon
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-0-04335-1
Ano de publicação: 2011

Jean Bosmans, o protagonista de O Horizonte, é um escritor sexagenário que se vê de repente assombrado pela memória de episódios soltos da juventude – tempo em que muitas histórias ficaram como que suspensas na ilusão de um «eterno presente». Num caderno preto, ele aponta essas «nuvens flutuantes» que deslizam «umas atrás das outras», tenta dar-lhes uma ordem, um sentido, levado pela «vertigem» do que «poderia ter acontecido e não acontecera». Na sua vida, esses «fios quebrados» equivalem ao que os astrónomos designam por «matéria escura», a parte invisível do universo que é «mais vasta do que a parte visível». E mais insondável.
De certa forma, O Horizonte acaba por ser um livro de fantasmas, em que pessoas se materializam inexplicavelmente na vida de outras pessoas (como ameaça ou como redenção) para logo se dissiparem, ao ponto de questionarmos se alguma vez existiram. A investigação retrospectiva de Bosmans centra-se em Margaret Le Coz, uma misteriosa rapariga de origem bretã, nascida em Berlim no final da II Grande Guerra, com quem se cruzou por acaso na agitação dos anos 60, em Paris. Este improvável encontro de dois seres desenraizados e frágeis resiste, porém, à linearidade das histórias de amor: «a impressão que me ficou é a de que eu e Margaret viajávamos sempre em comboios noturnos, de tal modo que aquele período das nossas vidas é descontínuo, caótico, entrecortado por uma quantidade de sequências muito curtas sem a menor ligação entre si». Oscilando entre o passado difuso e a lucidez do presente, a narrativa desentranha pouco a pouco uma história de perda (a fuga de Margaret, desaparecida sem deixar rasto) que se transforma, quando menos o esperaríamos, num «horizonte» de esperança.
Intangível, por vezes onírico, de uma subtileza admirável, este belo romance mostra Modiano no cume da sua arte: a arte de ser Modiano. Está tudo lá: a voz, a limpidez do estilo, as obsessões. A nós, que o lemos, cabe-nos agradecer a constância de um escritor maior.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges