Matéria raríssima

Ephemeras
Autora: Inês Lourenço
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 44
ISBN: 978-989-8592-14-9
Ano de publicação: 2012

As efémeras são insectos que «eclodem à superfície de alguns rios, nos limos ou nas algas, pelos fins de Junho ou Agosto». Criaturas frágeis, de «ínfimo corpo», duram apenas 24 horas – «curta existência» onde cabe, comprimida, uma vida inteira (acasalam e põem ovos, voam freneticamente agitando as suas asas verticais, acendem-se e logo se apagam no «grande final aéreo», para o qual se prepararam em lenta metamorfose, durante cerca de dois anos, antes da eclosão). Os textos breves de Inês Lourenço assemelham-se às efémeras na urgência e na delicadeza. Falam de coisas preciosas mas voláteis, coisas que se foram perdendo: o misterioso latim das missas (substituído por uma «liturgia pimba»); as casas como lugares onde já não se nasce, nem morre; o peso do nome que nos dão; os prazeres tácteis (a «comunhão erótica» com os livros em papel, inexistente nos sofisticados e-books; ou a «luxúria apoteótica» dos frutos e suas «polpas macias», «arredondadas promessas de sumo»); as cartas de amor ridículas, em envelopes de forro violeta, brevemente enfiadas no decote «como para lhe transmitir algo da própria pele»; fotos de família em caixas de sapatos, «de que já ninguém lembrava os sapatos».
A maioria destas micro-histórias, no seu exercício da melancolia, está no limiar do poema em prosa ou da crónica (mas uma crónica que não quer ir a lado nenhum, antes se suspende na observação de detalhes ou súbitas fulgurações). Há também esboços ficcionais com desfechos irónicos, cruéis, surpreendentes ou de escolha múltipla. Inês Lourenço tem a noção exacta do que é a arte da miniatura: trabalhar as palavras como matéria raríssima que não se pode desperdiçar.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges