Memorial do estaleiro

Nascimento de uma Ponte
Autora: Maylis de Kerangal
Título original: Naissance d’un pont
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Teorema
N.º de páginas: 278
ISBN: 978-972-695-971-7
Ano de publicação: 2011

Durante muitos anos, houve quem explicasse o declínio do estatuto e influência da literatura francesa em Portugal – enormes há meio século, quase nulos hoje – com a conjugação de dois factores. Por um lado, a hegemonia cada vez mais notória da língua inglesa nos principais circuitos de consumo cultural. Por outro, um fechamento de horizontes dos próprios autores do Hexágono, incapazes de fugir a um certo pendor solipsista (como se a realidade não fosse além dos dilemas existenciais de quem vive em apartamentos modernos na rîve gauche parisiense). Se o primeiro factor é indesmentível, o segundo nem por isso. Aliás, o estereótipo do umbiguismo à solta em Saint-Germain des Prés não passa disso mesmo: de um estereótipo. Ou de uma parte tomada pelo todo. Além dos consagrados que são excepções à suposta regra (Le Clézio, Quignard, Echenoz, entre outros), há muitos novos autores que demonstram a vitalidade e diversidade da ficção francesa contemporânea. Felizmente, alguns deles começam a ser publicados por cá. Depois de Mathias Énard (Zona, Dom Quixote) e Laurent Binet (HHhH, Sextante), duas magníficas surpresas, apareceu de rompante este notável Nascimento de uma Ponte, de Maylis de Kerangal, justíssimo vencedor do Prémio Médicis de 2010.
A ponte a que o título se refere é um projecto de enorme envergadura (seis faixas de rodagem, quase dois quilómetros de comprimento, torres altíssimas, tabuleiro suspenso, tudo desenhado por um arquitecto de renome), obra de rasgo que promete colocar no mapa a imaginária cidade californiana de Coca, da qual «nunca ninguém ouviu falar». Fascinado com o novo-riquismo urbanístico do Dubai, o mayor aposta forte na ideia de expansão, acredita que é uma espécie de Médicis, um «príncipe mecenas de capa de veludo», e quer vencer a barreira que separa as duas margens em tudo opostas: de um lado, o crescimento económico vertiginoso; do outro, a floresta quase virgem, ainda habitada por tribos de índios. Paisagem dentro da paisagem, aquele «bloco de energia bruta» é um hino à engenharia e um delírio de grandeza («como um enorme desejo num corpo muito pequeno»).
Nas mãos de Kerangal, a ponte assume-se como uma metáfora da globalização, um íman que atrai operários especializados vindos de todo o mundo – dezenas de personagens que existem enquanto unidades narrativas autónomas, mesmo se nalguns casos reduzidas à escala mínima do parágrafo. O livro organiza-se como o relato exaustivo de uma «epopeia técnica», com a sua «movimentação colectiva», mas a autora, para lá da «mecânica gigantesca» do estaleiro, também nos oferece uma espécie de poética do trabalho, visível no modo como o texto assimila, nas suas frases longas, muito bem cinzeladas, as dinâmicas e ritmos próprios da construção (a prosa é pulsátil, voluptuosa, belíssima).
Enquanto crescem os pilares da ponte, alarga-se o alcance da gesta narrada. Kerangal não se limita a descrever as contingências da obra: múltiplos atrasos (por causa do clima agreste ou da nidificação de aves migratórias); acidentes; ameaças de greve; uma hipótese de atentado. Vai mais longe, recuperando a história mítica da cidade, hoje «dopada pelo suor e pelo dinheiro», mas outrora apenas a materialização do sonho árduo dos pioneiros que desbravavam a natureza, a caminho do mirífico Oeste. E vai também mais fundo, aproximando-se em zoom das personagens, entrando nelas, nos seus pensamentos e memórias, nas suas histórias passadas, nos seus amores improváveis. Há em Nascimento de uma Ponte um sopro épico, mas o fulgor da escrita nunca ofusca a sua dimensão humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges