Memórias de 74

lembro-me

Lembro-me que
Autor: Ferreira Fernandes
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 127
ISBN: 978-989-722-092-0
Ano de publicação: 2014

O conceito deste livro, Ferreira Fernandes foi buscá-lo a Georges Perec (Je me Souviens, 1978), que já o tinha colhido do americano Joe Brainard. A ideia é recuperar o passado através de flashes, pequenos fragmentos de prosa acesos por uma invocação («Lembro-me que…») – ao mesmo tempo um trabalho da memória e um «exercício poético». Recorrendo a este mecanismo narrativo, Ferreira Fernandes não enveredou pelas reminiscências pessoais (como Brainard) nem pelas impalpáveis nostalgias quotidianas (como Perec). O objectivo era outro: «Pretendo contar uma bela data de Portugal, o 25 de Abril de 1974, lembrando pequenos e menos pequenos instantes que imediatamente a antecederam.» Ou seja, episódios ocorridos num período de quase quatro meses, entre 1 de Janeiro e o «grande dia». Dez anos após a primeira edição (Oficina do Livro), Lembro-me que volta em boa hora para nos mostrar como era Portugal em vésperas da grande mudança.
Cronista exímio, capaz de fixar e enquadrar num só parágrafo um detalhe retirado da actualidade, Ferreira Fernandes transpõe essa sua arte para os 327 fragmentos que compõem o livro. O segredo está na atenção aos factos aparentemente insignificantes que tantas vezes sinalizam metamorfoses em curso. Como os exemplos de escrita cifrada em que os jornalistas portugueses da época se especializaram, ao falarem de meteorologia ou futebol. Também há aproximações, à vol d’oiseau, ao lado mais prático ou trivial do dia-a-dia: «Lembro-me que ir ao café ficava por 4$50. Três vezes 15 tostões assim divididos: 1$50 para o café, 1$50 para o jornal e 1$50 para engraxar os sapatos»; «Lembro-me que os autocarros do Porto mudaram do verde para o laranja». Eis a vidinha do cidadão comum; a crise do petróleo que aumentou a galope o preço da gasolina (e não só: «Nas ourivesarias já não havia benzina para reparar os relógios»); a publicidade; os desmandos da Justiça; as delações mesquinhas; a criação da DECO (era vice-presidente «um engenheiro de bigodinho, de 24 anos, António Guterres»); as artimanhas para enganar a censura; a euforia com o Festival da Canção, esse «vício anual». O retrato é o de um país em que já era possível ler, nas entrelinhas, o que aí vinha, tornando ridículas as ilusões públicas de quem – exercendo o poder – não via, ou fingia não ver, que esse poder estava a chegar ao fim.
Ferreira Fernandes não escreve a partir da sua memória directa, porque durante o período em causa vivia exilado em França, de onde regressou na madrugada do 1.º de Maio de 1974, num comboio «com as bandeiras vermelhas e negras ao vento, atravessando a Espanha franquista». A distância até lhe confere, porventura, uma maior lucidez na selecção do que admite serem «falsas recordações», assumidamente «escolhas de jornalista compulsadas em jornais da época». Quando escreve «LEMBRO-ME», em maiúsculas, no fragmento final, sem mais nada, escreve no fundo: «LEMBRAMO-NOS». Porque estas memórias não são de um indivíduo, mas de todos nós.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges