Metempsicoses

As Reencarnações de Pitágoras
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-665-015-5
Ano de publicação: 2015

Tal como a obra literária de Gonçalo M. Tavares, também a de Afonso Cruz tem várias frentes, ou ramos autónomos. Um dos mais profícuos tem sido, desde 2009, o projecto da Enciclopédia da Estória Universal, conjunto de volumes supostamente organizados por um fictício Théophile Morel. A ideia inicial da série consistia em juntar, por ordem alfabética, entradas sobre os mais variados tópicos (filosóficos ou históricos, científicos ou míticos), todas elas fantásticas, falsificadas, ou mal atribuídas. Estávamos no terreno da literatura enquanto jogo e «grande burla», em que o leitor, o burlado, está consciente dos engenhosos enganos e deixa-se enredar nos labirintos da ficção, à maneira do que acontece em muitos livros de Borges, mencionado por Morel, no comentário ao primeiro volume, como exemplo de toda uma escola de escritores «embusteiros e mistificadores».
Se os volumes seguintes mantiveram os princípios estruturais – como a ordem alfabética e as citações de autores imaginários, muitos dos quais aparecem, enquanto personagens, nos romances autónomos de Afonso Cruz –, o certo é que a Enciclopédia tem vindo a perder consistência. O segundo tomo (Recolha de Alexandria, 2012) e o terceiro (Arquivos de Dresner, 2013) revelavam menos rasgo do que o volume inicial, mas eram ainda belíssimas colecções de pequenas narrativas eruditas, saídas da imaginação algo selvagem de um leitor omnívoro, que imaginamos a devorar bibliotecas inteiras e a recombiná-las num acto de suprema liberdade criativa. Já o quarto volume, Mar (2014), se revelou mais problemático, não apenas por se circunscrever a um só tema, anunciado no título, mas porque inclui textos de maior dimensão (duas novelas curtas). No fundo, funciona como uma recolha de contos, alguns deles com interligações, quase todos bastante conseguidos. Nada temos contra o livro enquanto objecto literário que vale por si mesmo (embora não esteja entre os melhores de Afonso Cruz), mas inclui-lo na série da Enciclopédia pareceu algo forçado.
O mesmo se passa com este quinto volume, servido por belas ilustrações de Susa Monteiro. Não se discute o conceito, um «resumo poético de algumas das transmigrações que Pitágoras viveu ao longo dos séculos, desde a Mesopotâmia aos dias de hoje», mas o seu confinamento temático. Se excluirmos o facto de os textos, curtíssimos, surgirem em ordem alfabética, não há nada que justifique a inclusão na Enciclopédia – a não ser, talvez, o compromisso assumido com a editora de publicar um volume por ano. Além disso, o próprio elemento unificador, ou seja, o exercício de invenção de vidas passadas e futuras para o matemático grego que acreditava na reencarnação da alma, parece algo gratuito. É um pretexto como qualquer outro para criar uma galeria de personagens, mas sente-se que essas personagens seriam as mesmas, existiriam sempre, mesmo se o pretexto fosse diferente.
Num escritor tão talentoso e brilhante, fica a ideia de que Afonso Cruz baixou a guarda e cedeu à facilidade. A própria escrita revela mais oscilações qualitativas do que é hábito no autor. Ainda assim, o livro vale por algumas vinhetas perfeitas. Um exemplo: a história de Malgorzata Jajac, presença assídua nos outros volumes da Enciclopédia, autora que «escrevia terramotos» e cujas frases, de tão altas, se tornavam «para quem as lê, vertigem numa folha de papel». Ou esse Ioane Dolidze que «pretendia crucificar a Humanidade sem usar madeira e pregos». Como? Dizendo aos homens para «caminharem na direcção uns dos outros de braços abertos, crucificados na promessa de um abraço».

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]



Comentários

One Response to “Metempsicoses”

  1. Janeiro de 2016 | Rascunhos on Fevereiro 2nd, 2016 15:32

    […] – As reencarnações de Pitágoras – Afonso Cruz – Bibliotecário de Babel; […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges